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Homero
Homero (c. siglo VIII a. C.) es el nombre por el que se conoce al poeta griego a quien se atribuye la autoría de la Ilíada y la Odisea. Junto a estas dos grandes epopeyas de la Antigüedad, que narran hechos legendarios supuestamente ocurridos muchos siglos antes de la época en que fueron escritas, figuran también los llamados himnos homéricos, que fueron una influencia fundamental en la tradición de la poesía oral. Existen numerosas hipótesis sobre la identidad de Homero y sobre el hecho de si su obra fue escrita por uno o varios poetas, pero todos los expertos coinciden en que la tradición tiene un peso crucial en su imaginario. En el siglo XIX el célebre arqueólogo prusiano Heinrich Schliemann demostró que gran parte de la civilización descrita por Homero no es ficticia y que, hasta cierto punto, los poemas se podrían considerar como documentos históricos. Este hallazgo arqueológico ha abierto un debate todavía vigente.
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Odisseia - Homero
Livro 1
Canta, ó Musa, o varão que astucioso,
Rasa Ílion santa, errou de clima em clima,
Viu de muitas nações costumes vários.
Mil transes padeceu no equóreo ponto,
5 Por segurar a vida e aos seus a volta;
Baldo afã! pereceram, tendo insanos
Ao claro Hiperiônio os bois comido,
Que não quis para a pátria alumiá-los.
Tudo, ó prole Dial, me aponta e lembra.
10 Da guerra e do mar sevo recolhidos
Os que eram salvos, um por seu consorte
Calipso, ninfa augusta, apetecendo,
Separava-o da esposa em cava gruta.
O céu, porém, traçou, volvendo-se anos,
15 De Ítaca reduzi-lo ao seio amigo,
Onde novos trabalhos o aguardavam:
De Ulisses condoíam-se as deidades;
Mas, sempre infenso, obstava-lhe Netuno,
Este era entre os Etíopes longínquos,
20 Do oriente e ocidente últimos homens,
Num de touros e ovelhas sacrifício
A deleitar-se; e estavam já no alcáçar
Do Olimpo os habitantes em concílio.
O soberano, a recordar Egisto
25 Do Agamenônio Orestes imolado,
Principia: "Os mortais ah! nos imputam,
Os males seus, que ao fado e à própria incúria
Devem somente. Contra o fado mesmo,
Do porvir não cuidoso, há pouco Egisto,
30 Em seu regresso o Atrida assassinando,
Esposou-lhe a mulher, bem que enviado
O Argicida sutil o dissuadisse:
— De o matar foge e poluir seu leito;
Senão, tem de vingá-lo, adolescente
35 Sendo investido no seu reino Orestes. —
Mercúrio o amoestou, mas surdo Egisto,
Os delitos por junto expia agora".
A quem Minerva: "Sumo pai Satúrnio,
Jaz com razão punido esse perverso;
40 Todo que o imitar, com ele acabe!
Mas a aflição de Ulisses me compunge,
Que, há tanto longe dos amenos lares,
Em ilha está circúnflua e nemorosa,
Lá no embigo do mar; onde é retido
45 Pela filha de Atlante onisciente,
Que o salso abismo sonda, o peso atura
Das colunas que a terra e o céu demarcam.
A deusa com blandícias o acarinha;
De Ítaca ele saudoso, o pátrio fumo
50 Ver deseja e morrer. Não te comoves?
Irritou-te faltando, em sua amada
E em Troia, com ofertas e holocaustos?"
E o Junta-nuvens: "Que proferes, filha,
Do encerro dessa boca? eu deslembrar-me
55 Do mortal mais sisudo, o mais devoto,
Aos celícolas pio e dadivoso!
Da terra o abarcador é quem o avexa,
Por ter do olho privado a Polifemo,
O mor Ciclope, que, num antro unida
60 A Netuno, pariu Toosa, estirpe
De Fórcis deus do pego insemeável.
O Enosigeu d’então lhe poupa a vida,
Mas de Ítaca o arreda. Provejamos
Na vinda sua; aplaque-se Netuno:
65 Só contra todos contender não pode".
A Olhicerúlea: "Ó padre, ó rei supremo,
Se vos praz que à família torne Ulisses,
Da ínsula Ogígia à ninfa emadeixada
Mercúrio o intime, o herói prudente parta.
70 A Ítaca baixo a confortar o filho:
Os comantes Argeus convoque ousado;
Suste aos vorazes procos a carnagem
De flexípedes bois e ovelhas pingues.
Dali, na Esparta e na arenosa Pilos,
75 Do amado genitor se informe e indague,
E entre humanos obtenha ilustre fama".
Já liga alparcas de ouro incorruptíveis,
Que a propelem como aura pelas ondas
Ou pelo amplo terreno; a lança empunha
80 De érea afiada ponta e desmedida,
Com que turmas de heróis desfaz metuenda,
Progênie de tal pai. Do Olimpo frecha;
Em Ítaca, ao vestíbulo de Ulisses
Tem-se, e de hasta na destra, parecia
85 O hóspede Mentes campeão dos Táfios.
Ao pórtico acha intrusos pretendentes
Sobre coiros de bois que morto haviam,
Os dados a jogar. Servos e arautos
Misturam nas crateras água e vinho,
90 Ou com povosa esponja as mesas pulem,
E partem nelas abundantes carnes.
Distante a vê Telêmaco deiforme:
No meio, taciturno e consternado
No genitor pensava, que expulsá-los
95 E reger venha o leme do governo.
Entrementes a avista, e não sofrendo
Por mais tempo de fora um peregrino,
Corre, aperta-lhe a mão, sua arma toma:
"Hóspede amigo, salve; o que precisas,
100 Depois do teu repasto o saberemos".
Ei-lo encaminha a deia, e já na sala
Ante celsa coluna encosta a lança
À nítida hastaria, onde em fileira
As de Ulisses valente em pé dormiam.
105 Num trono a põe dedáleo de alcatifa
E de escabelo aos pés, senta-se perto
Em variegada sela; à parte ficam,
Para que, à bulha e ao trato com soberbos,
O hóspede o apetite não perdesse,
110 E do pai ele a folgo o interrogasse.
De gomil de ouro às mãos verte uma serva
Água em bacia argêntea, a mesa lustra,
Que enche a modesta afável despenseira
De pães e das presentes iguarias;
115 Escudelas de várias novas carnes
O trinchante apresenta e copos de ouro,
Que arrasa de almo vinho arauto assíduo.
Suspenso o jogo, os feros pretendentes
Ocupam já cadeiras e camilhas;
120 Dão água às mãos arautos, pão comulam
Servas em canistréis; atiram-se eles
Aos regalados pratos, e as crateras
Lhes coroam mancebos. Farta a sede,
Farta a fome, em prazer os embriagam
125 Música, dança, adornos de banquetes:
Cítara ebúrnea entrega um dos arautos
A Fêmio, que forçado ali tangia
E o cântico ajustava ao som das cordas.
Inclinou-se Telêmaco a Minerva,
130 Dizendo à puridade: "Hóspede caro,
Vou talvez enfadar-te? Eles só curam
De cantigas e danças, porque impunes
Comem do alheio, os bens do herói consumem.
Cuja ossada ou jaz podre em longes terras,
135 Ou rola entre maretas; ah! se o vissem
Cá reaparecer, mais que ouro e galas,
Planta leve amariam. Fado acerbo
Urge-o porém, e embora algum terrestre
A volta sua afirme, as esperanças
140 Murchas estão, nem luzirá tal dia.
Ora, quem és? de que família e pátria?
Com que gente vieste e em que navio?
Vindo a pé não te creio. Uses franqueza,
Hóspede me és recente ou já paterno?
145 A muitos nosso teto agasalhava,
E meu pai atraía os forasteiros".
A de azuis claros olhos: "Não duvides,
Mentes sou, de ser nado me glorio
De Anquíale belaz, e os Táfios mando
150 Náuticos hábeis. Vim, com meus remeiros
Sulcando o negro pélago, a Temeses
De estranha língua permutar meu ferro
Pelo seu cobre: o vaso tenho surto
No Retro porto, fora da cidade,
155 Junto ao Neio frondoso. Antigo hospício
Me une a teu pai, e o diga o bom Laertes;
Herói que, é fama, a corte mesto esquiva
Em campo solitário, onde ama idosa
Lhe apresta a mesa, ao vir cansado e lasso
160 De amanhar fertilíssimos vinhedos.
Cuidei, corria voz, tornado Ulisses;
Mas os deuses o impedem, que inda vive
Em ilha de mar vasto circunfusa,
Por bárbaros detido e involuntário.
165 O que o Céu sugeriu-me, eu to assevero,
Se bem áugure não seja ou grã-profeta:
Não tardará; que, embora o tenham ferros,
Ardis cogita. Sê sincero; os olhos
E a cabeça tens dele, és tu seu filho?
170 Como agora frequentes conversávamos;
Desde que para Troia, entre os mais cabos,
Se embarcou, nunca mais nos avistamos".
E o príncipe modesto: "Hóspede, é certo
Que minha mãe de Ulisses me diz prole;
175 Por si mesmo ninguém seu pai descobre.
Oh! gerado fosse eu de um mais ditoso,
Que em suas possessões envelhecesse!
A porvir de um herói, já que o perguntas,
Esse é desgraçadíssimo dos homens".
180 E Palas: "Deu-te o Céu preclaro berço,
És da casta Penélope nascido.
Mas, dize, que festim, que turba é esta?
Para que a tens? são núpcias? é banquete?
Por escote o não fazem. Que insolência!
185 Qualquer homem de siso há de irritar-se
De os ver assim". — Telêmaco prudente:
"Hóspede, honesta e rica era esta casa,
Quando aquele varão conosco estava;
Mas obscuro ocultá-lo aprouve aos deuses.
190 Menos dor fora se acabasse em Ílion,
Ou no meio de amigos triunfante:
Erigindo-lhe a Grécia um monumento,
Ao filho seu legara imensa glória.
As Harpias cruéis mo arrebataram;
195 Sem brilho algum morreu, só lutos, herdo.
Outros prantos o fado nos suscita:
Os chefes de Dulíquio ambiciosos,
De Ítaca rude e Samos e Zacinto
Pretendem minha mãe, que os não repulsa,
200 Bem que fiel tais himeneus deteste;
Famélicos o haver me dilapidam,
E malvados a morte me aparelham".
Palas com dó: "Precisas de que Ulisses
A mão carregue sobre audácia tanta.
205 Oh! de seu paço à entrada aparecesse
De elmo, adarga e hastas duas, qual chegando
O vi de Éfira e de Ilo Mermérida,
Aonde fora numa nau veleira
Comprar veneno para ervar as setas;
210 Mas, como Ilo o negou temendo os numes,
Lho deu meu pai, que amigo em nossa casa
O regalou de saborosos vinhos:
Surdisse, e a boda amargaria aos procos.
Se cá deva o Laércio ou não vingar-se,
215 Arcano é divinal; tu considera
De enxotá-los o modo, eu to aconselho:
Em assembleia aos teus amanhã fala,
Atesta o Céu, despede esses intrusos;
A desejar Penélope outro esposo,
220 Torne a seu pai, que as núpcias lá celebre,
E um dote para a filha haja condigno.
Se outro cordato aviso adotar queres,
Navegues, a indagar de Ulisses novas,
Em ótimo baixel de vinte remos:
225 Talvez alguém te informe, ou soe o brado
Com que Jove aos mortais gradua a fama.
Interroga a Nestor primeiro em Pilos,
Na Esparta ao louro Atrida, que o postremo
Dos lorigados reis entrou na Grécia.
230 Vivo Ulisses, paciente um ano esperes;
Morto, regressa, um monumento exalça
E consagra-lhe exéquias dignas dele;
De ti novo marido a mãe receba.
Isto acabado, às claras ou por fraude,
235 Sério dos procos desfazer-te busca:
De brincos pueris não é mais tempo.
Ouves de Orestes o renome honroso,
Por ter vingado o pai no infame Egisto?
Sê no valor qual és no garbo e talhe;
240 Gabem-te, filho, as gerações futuras.
Vou-me à inquieta nau por minha ausência:
Tudo observes, amigo, e nada esqueças".
E o moço: "Hóspede, os sábios teus conselhos
Preceitos são de pai, que eu n’alma guardo.
245 Mas demora-te ainda, a fim que um banho
O coração te alegre, e prenda exímia
Aceites hospital, que tu conserves,
Doce memória da amizade nossa".
"Não me estorves, replica, ansioso parto.
250 A tua oferta para a volta aceito;
A Tafo hei de levá-la, e dignamente
Retribuir". Eis voa a gázea deusa,
Águia Anopéia, infunde-lhe coragem,
Na alma avivando o pai. Crendo-a celeste,
255 O deiforme assombrado aos mais se agrega.
Mudos a Fêmio atendem, que o de Troia
Triste regresso dos Aqueus modula,
Pom Minerva disposto. A nobre Icária
Penélope a divina cantilena
260 Do alto percebe, e desce pela escada.
Não só, com duas servas; ante os procos,
À porta, o véu de pejo ao rosto abaixa,
Entre as servas lágrima, ao vale fala:
Fêmio, outros carmes e trabalhos sabes
265 De homens e deuses, da poesia assunto;
Escolhe um que a beber te escutem ledos:
Suspende esse cantar, que amargo sempre
O coração me rala e mo entristece,
À lembrança do herói, cuja alta glória
270 Por toda Hélade e Argólida ressoa".
"Reprovas, minha mãe, contesta o filho,
Que nos deleite a impulsos do seu gênio?
Os poetas não culpes, culpa a Jove
Que a prazer os inspira e o estro acende.
275 Não peca em celebrar de Aqueus os males,
E se é nova a canção, mais prende os homens:
Reforça o ânimo teu para sustê-la.
Se luz não teve para a volta Ulisses,
Em Troia outros heróis também ficaram.
280 Mas dentro as servas atarefa, intende
Na roca e no tear: varões discorram,
E eu mormente que sou da casa o dono".
Recolheu-se com pasmo, na prudência
Do filho meditando, pela escada,
285 Mais as fâmulas duas, vai carpindo
O amado ausente esposo, até que em sono
Boa Minerva as pálpebras lhe fecha.
De compartir seu leito ávidos eles,
Na escurecida sala tumultuam;
290 A quem Telêmaco: "O alarido cesse
De Penélope amantes ultrajosos:
Ora à mesa o cantor saboreemos,
Na harmonia parelho às divindades.
Amanhã sem rebouço, em parlamento,
295 Exporei meu desejo de expulsar-vos:
Mutuando os festins, comei do vosso.
A preferirdes consumir sem termo
Os bens de um só, recorro aos Sempiternos:
Júpiter o castigo vos fulmine,
300 E nestes paços expireis inultos".
Aqui, mordendo os beiços, da ousadia
Pasmavam do mancebo; a Antino, garfo
De Eupiteu, rebentou: "Do Olimpo, certo,
A sublime linguagem te ensinaram;
305 Se és audaz, é que de Ítaca circúnflua
Oh! destinam-te o cetro hereditário".
Mui ponderoso o príncipe: "O que ajunto
Não te exaspere, Antino: eu de vontade
Granjeara de Júpiter o cetro.
310 Mau reputas reinar? quem reina goza
Opulenta morada e as mores honras.
Na ilha há jovens e anciãos que aspiram,
Morto Ulisses, ao mando: quero apenas
O rei ser desta casa, e dos meus servos
315 Pelo braço paterno conquistados".
E Eurímaco de Pólibo: "Quem seja
De Ítaca rei, no grêmio está dos numes:
Senhor és do palácio, e enquanto a pátria
For habitada, príncipe, não temas
320 Que da riqueza tua alguém te esbulhe.
Mas conta-nos, amigo, donde veio,
Que herdades o teu hóspede cultiva,
Qual é sua prosápia. Anunciou-te
Perto Ulisses, ou dívida reclama?
325 Foi-se rapidamente e se encobria;
Porém no aspeto seu nobreza inculca".
"Eurimaco, responde o cauto moço,
Ah! não verei meu pai, nem creio anúncios,
Nem curo de adivinhos que na régia
330 Consulta minha mãe. Aquele é Mentes
Hóspede meu paterno, que se jacta
Filho do ilustre Anquíale; é de Tafo,
Governa os Táfios navegantes hábeis".
Fala assim, mas conhece a divindade.
335 Na dança e melodia eles se enleiam,
Té que Vésper assoma, e fusca a noite
Vão-se à casa lograr do mole sono.
Cuidados cem Telêmaco rolando,
Um pátio busca interno, onde aposento
340 Soberbo tinha; avante, aceso um facho
Ia a castíssima Euricléia, filha
De Opes de Pisenor, que, enrubescida,
Por vinte bois comprada, igual da esposa
A estimava Laertes, mas honesto
345 Nem lhe tocou, para forrar ciúmes;
De Telêmaco a serva era dileta,
Porque infante o pensara. Esta é quem abre
O camarim formoso: ele na cama
Despe a macia túnica; dobrada
350 Em cabide a pendura junto ao leito
A boa velha, que ao sair, a porta
Por um anel de prata a si puxando,
Corre da aldrava o loro. De ovelhuna
Lã coberto, a cismar despende a noite
355 Na viagem que a deusa lhe ordenara.
Notas ao Livro 1
43-88 — Circúnfluo quer dizer cercado de ondas, e já é nosso. — Embigo do mar, versão literal do grego, significa o lugar mais elevado do mar: não quis diminuir a força do texto. — Pesoissi, interpretado calculis, indica o xadrez, que, segundo a tradição, pouco havia que Palamedes o tinha inventado, e devera ser o jogo da moda; mas parece que o termo grego indica antes o jogo de dados.
104-114 — A expressão em pé dormiam, aplicada às lanças, é de Pindemonte, e parece-me ter lido em Francisco Manuel cousa parecida. — Das palavras a que faço corresponder presentes iguarias, vê-se que a serva pôs à mesa de Minerva alguns dos pratos que estavam na dos príncipes, e ao depois veio o cozinheiro trinchante com outros quentes: os primeiros deviam ser daqueles que, ainda entre os modernos, se costumam guardar, v. g. fiambres, doces, etc. Assim opinam comentadores, mas em várias traduções omite-se esta circunstância, que aliás mostra um uso da antiguidade.
221 — Não é claro se o dote seria dado pelo pai ou pelo noivo preferido: há diferentes opiniões, e eu sou mais da segunda.
274 — Diz M. Giguet: Les poètes ne sont pas coupables; mais Jupiter, qui dispose à son gré du sort des humains.
Penso que o sentido é que Penélope não culpe a Fêmio o cantar aqueles versos, porque Júpiter é que inspira os poetas a seu prazer.
302-311 — Digo Antino e não Antinôo, assim como Camões dizia Alcino e não Alcinôo. — Do verso 308-311, opina-se que o reinar não é um mal; o meu bom Ferreira, numa cena belíssima da Castro, é de voto contrário: a experiência contudo favorece o do poeta grego. Se fosse mau o reinar, não se teriam cometido tantos crimes para se obter um cetro. Ao momento de escrever isto, os próprios gregos lutam atrapalhados com a candidatura de muitos que aspiram a carregar sobre eles o mesmo cetro que o trágico lusitano qualifica de pesado para os que o trazem; e os três animais ferozes da Europa estão vibrando o olhar sanguíneo, uns contra os outros, por causa da presa.
Livro 2
Veste-se, à luz da dedirrósea aurora,
Sai da alcova o amadíssimo Ulisseida
Ao tiracolo a espada e aos pés sandálias,
Fulgente como um deus, expede arautos
5 A apregoar e reunir os Gregos.
De hasta aênea, ao congresso alvoroçado,
Não sem dous cães alvíssimos, se agrega;
Minerva graça lhe infundiu celeste.
Seu porte e ar admira o povo inteiro;
10 Cedem-lhe os velhos o paterno assento.
Egípcio ergueu-se, de anos curvo e sábio,
A lembrar-se de Antifo, que audaz indo
Com Ulisses a Troia, do Ciclope
Foi na seva espelunca última ceia;
15 O herói carpia o filho, e bem que houvesse
Três outros, um dos procos Eurínomo,
Dous nas lavouras ocupados sempre,
Concionou lagrimando: "Nunca, atentos
Cidadãos, em congresso nos sentamos,
20 Desde que Ulisses embarcou divino:
Que provecto ou mancebo o ajunta agora?
Que urge? anúncio há exército inimigo?
Ou tratar vem de público interesse?
Nas justas intenções o assiste Jove".
25 O Ulisseida não mais fica em seu posto;
Ledo, orar cobiçando, em pé recebe
Do arauto Pisenor sisudo o cetro,
Por Egípcio começa: "Eis-me, tens perto
Quem, ancião, convoca esta assembleia;
30 Nem há novas de exército inimigo,
Nem trato hoje de público interesse,
Mas do meu próprio. Hei duas graves penas:
Falta-me o pai, que o era do seu povo;
O pior é que amantes importunos,
35 Filhos dos principais aqui presentes,
Minha mãe vexam, minha casa estragam.
A Icário temem ir, que a filha dote
E escolha o genro que lhe for mais grato;
Em diários festins, meus bois tragando,
40 Cabras e ovelhas, minha adega exaurem.
Nem outro Ulisses que remova o dano,
Nem forças tenho e militar perícia;
Mal seria tentá-lo: oh! se eu pudesse!
Da ruína e infâmia, cidadãos, salvai-me,
45 Os vizinhos temei, temei que os deuses
Em vós a indigna tolerância punam:
E vos rogo por Júpiter, por Têmis,
Que demite ou congrega as assembleias,
Socorro, amigos; só me reste a mágoa
50 Do extinto pai. Se dele ofensas tendes,
E contra mim os instigais, mais vale
Vós os móveis e imóveis consumirdes:
Assim, tinha o recurso de que a tempo
Em Ítaca meus bens vos reclamasse,
55 Compensações recíprocas fazendo.
Ora, insanável dor me infligis n’alma".
De cólera chorando, o cetro arroja;
Comisera-se o povo. À queixa amarga,
Em roda emudeceram, mas Antino,
60 Rompe o silêncio: "Altíloquo e impotente
Da ignomínia o ferrete em nós imprimes?
A ninguém mais, Telêmaco, a mãe cara
Somente arguas, que de astúcias mestra,
Quatro anos quase, nos contrista, ilusos
65 De promessas, recados e esperanças,
E al tem no coração. Com novo engano,
Nos disse, ao predispor fina ampla teia:
— Amantes meus depois de morto Ulisses,
Vós não me insteis, o meu lavor perdendo,
70 Sem que do herói Laertes a mortalha
Toda seja tecida, para quando
No longo sono o sopitar o fado:
Nenhuma Argiva exprobre-me um funéreo
Manto rico não ter quem teve tanto. —
75 Esta desculpa ingênuos aceitamos.
Ela, um triênio, desmanchava à noite
À luz da lâmpada o lavor diurno;
Ao depois, avisou-nos uma escrava,
E a destecer a teia a surpreendemos:
80 Então viu-se obrigada a concluí-la.
Saibas nossa resposta, e a saibam todos:
Penélope de Icário ao paço envies,
Marido a sabor dela o pai lhe escolha.
De indústria, engenho e ardis, a ornou. Minerva,
85 Quais não dera às mais célebres Aquivas,
Tiro e Alcmena e Micena emadeixadas;
Mas dos dotes abusa em que as supera,
A príncipes da Grécia atormentando.
A insistir na repulsa, na vontade
90 Que os imortais no peito lhe puseram,
Terá glória perene, embora sintas
Esgotados rebanhos e tesouros;
Pois, o assevero, a empresa não largamos,
Antes que ela um consorte a gosto eleja".
95 Logo Telêmaco: "A expulsar, Antino,
Quem me pariu e amamentou me instigas?
Viva Ulisses ou não, se tal cometo,
A meu avô dar cumpre estreita conta;
Aflito pelo pai, depois que as Fúrias
100 Penélope, este lar deixando, impreque,
Me incitará mau gênio humanos ódios:
Não, não proferirei tamanho crime.
Mutuando os festins, comei do vosso,
A casa despejai-me. A preferirdes
105 Gastar os bens de um só, recorro aos deuses:
Júpiter o castigo vos fulmine,
E nestes paços expireis inultos".
Aqui despede o próvido Satúrnio
110 Do alto águias duas, que, de pandas asas
Pelas auras a par, ante o congresso
Mirando em giro e sacudindo as penas
Sobre as cabeças, prometiam mortes;
Lacerando-se à unha a testa e o colo,
Da cidade por cima à destra voam.
115 No anúncio a refletir, pasmaram todos.
Ergueu-se o herói Mastórida Haliterse,
Agoureiro o melhor entre os coevos,
E orou de grado: "Cidadãos, ouvi-me,
Risco iminente pressagio aos procos:
120 Não tarda Ulisses, que vizinho traça
Deles o exício e de outros Itacenses.
De os refrear o modo averiguemos,
Ou se abstenham por si, que é mais cordato.
Inexperto não sou; predisse aos Gregos,
125 No embarcar para Troia o astuto Ulisses,
Que sem nenhum dos seus, após vinte anos
E transes mil, ignoto aqui viria:
Quanto prenunciei vai ser cumprido".
Eurímaco retorque: "Eia, a teus filhos
130 Corre a vaticinar, para que um dia
Sério desastre, ó velho, não padeçam:
Profeta eu sou maior; nem quantas aves
Ao sol adejam, prognosticam males.
Como Ulisses, ao longe oh! pereceras,
135 Áugure falaz; com olho só no lucro,
O ódio nunca em Telêmaco excitavas.
Mas, se