Este documento discute um livro recente intitulado "Cânone" que reúne textos de vários académicos portugueses sobre a literatura portuguesa. Critica a abordagem do livro por se centrar num "exercício de musealização" que transforma os autores em "crédito" para a história, em vez de ter uma relação mais aberta com o passado literário. Defende que seria melhor uma abordagem não necessariamente histórica como a proposta por Roland Barthes de uma "Sociedade dos Amigos do Texto
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Cânone
Este documento discute um livro recente intitulado "Cânone" que reúne textos de vários académicos portugueses sobre a literatura portuguesa. Critica a abordagem do livro por se centrar num "exercício de musealização" que transforma os autores em "crédito" para a história, em vez de ter uma relação mais aberta com o passado literário. Defende que seria melhor uma abordagem não necessariamente histórica como a proposta por Roland Barthes de uma "Sociedade dos Amigos do Texto
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António Feijó, João Figueiro e Miguel Tamen, distintos académicos da
universidade portuguesa, decidiram convidar o que de melhor existe nesta última –
tirando um ou outro nome que não surge, por esquecimento ou pelo convite ter sido declinado – para criar esta obra saída recentemente a que deram o nome de “Cânone”. Um dos méritos, sem dúvida, deste volume, é retirar a universidade dos seus lugares normais – o ensaio longo, para especialistas –, devolvendo-a ao espaço de onde nunca deveria ter saído, o público, usando para tal de duas estratégias: textos curtos, sem grande aparato bibliográfico, e “obrigar” alguns dos seus autores a escrever sobre áreas onde não são especialistas. É particularmente inane começar a discussão desta obra com as ausências. Não estão lá nem Eugénio de Andrade, nem Sophia de Mello Breyner nem Virgílio Ferreira (facilmente se pensam noutras ausências) porque este tipo de obras parte sempre de critérios que são históricos, contingentes e, em última análise, arbitrários (o que não significa, no entanto, que estejam ao dispor de cada um. A ideia de cânone pessoal é oca). E colocar a questão nestes termos acaba por revelar uma certa vontade de reconhecimento público que também precisa de ser interrogada: porque não, pelo contrário, lavrar protesto por haver certos nomes que lá se encontram, como se figurar num qualquer cânone fosse uma honra que naturalmente todos querem? Porque não dizer que o desaforo de Agustina – como Pedro Mexia descreve – se coaduna muito pouco com este tipo de gesto? Ou que o furibundo Camilo, que Abel Barros Baptista tenta salvar dessa parelha com Eça em que o estão sempre a tentar meter, certamente teria alguma coisa a dizer? Independentemente deste tipo de discussões vazias, o mais interessante, talvez, é perceber essa pulsão histórica que encontramos aqui. Por que é que juntando os melhores nomes da academia, estudiosos com provas dadas, com obra competente em todas as áreas, géneros e épocas da literatura portuguesa, aquilo com que ficamos não seja mais do que este “conjunto de autores dignos de se ler”, esse olhar sobre a história da literatura que vai separando aquilo que deve ficar daquilo que deve ser esquecido? Ou, dito de outra forma: o que é que leva a que este conjunto de académicos não consiga pensar uma relação à história da literatura que não passe por esse exercício de musealização ou, pior ainda, por transformar os autores em crédito? Percebe-se que haja aqui uma tentativa de dar notícia das discussões que se dão noutras latitudes (maioritariamente nos Estados Unidos) ou de tentar abrir essas mesmas discussões no espaço português – mas, como avisa logo António Feijó no início, “a sociedade portuguesa desconhece, ou reprime (...) qualquer heterogeneidade adivinhada de grupos constituintes, e ignora a incessante negociação que ela suscita”. Se o texto de Anna Klobucka – sobre as relações entre as mulheres e a literatura – e de João Figueiredo – sobre o “sair do armário” na literatura portuguesa – vão nesse sentido, outros há que de tão excêntricos não se percebe bem o que aqui fazem. “Poetas Laureados”, por exemplo. Miguel Tamen começa por dizer que o título de Poeta Laureado (que designa a “estima partilhada por um poeta no activo”, seja lá o que isso queira dizer ou como é que isso se afere sem ser fazendo uma sociologia de supermercado) “nunca foi concedido em Portugal” para, logo de seguida, afirmar que “o primeiro Poeta Laureado português num sentido moderno do termo foi João de Deus” – também não se percebe como é que se distingue o Poeta Laureado no seu sentido moderno de um outro sentido qualquer. Se o objectivo era afirmar que os poetas que são conhecidos em vida não ficam para a posteridade – será Manuel Alegre o alvo? E, se for, porque não o dizer abertamente? –, a lógica acaba por ser um pouco circular. Mas talvez aquele mais excêntrico seja, do mesmo autor, um texto intitulado “Portugal”. Quem o leia não percebe sequer do que é que Miguel Tamen está a falar: das opiniões que os estrangeiros têm sobre Portugal? Mas que estrangeiros? E quando? “Se em assuntos de Portugal e em matéria de não-portugueses o mínimo adjectivo favorável é geralmente multiplicado por oito, o mínimo adjectivo desfavorável é dividido por mil. As opiniões desfavoráveis são descontadas como um sinal de incompreensão, ou um sintoma das intenções hostis que aqueles que não são como nós nutrem a nosso respeito” Opinião favorável ou desfavorável relativamente a quê, em concreto? Ao país em geral? A um aspecto em particular? Onde Miguel Tamen se baseia para afirmar uma coisas destas é, de facto, um mistério. Mais: que faz um texto destes num livro sobre o cânone da literatura portuguesa? Nietzsche tinha um nome para este tipo de projecto que apenas consegue ter uma relação histórica com o passado. Chamava-lhes “os homens históricos” (e, quem quiser, pode sempre ler à letra a palavra “homens”): “Chamemos-lhes homens históricos; olhar para o passado impele-os para o futuro, acende neles a coragem para continuar a viver e a esperança de que a justiça ainda se encontra por vir, de que a felicidade se encontra atrás da montanha para a qual se dirigem. Estes homens históricos acreditam que o sentido da existência virá à luz do dia durante este processo.” Esta forma de relação à história da literatura, que apenas consegue canonizar certos autores e ter com eles uma relação de canonização, acaba por transformar estes em crédito: todo e qualquer desaforo, para usar o termo de Pedro Mexia, é rasurado em prol de uma história monumental que arregimenta os melhores para, em última análise, nos tornar melhores. Tudo aqui é já passado – mesmo que tivessem escolhido autores vivos –, discurso público, cultura. E esta forma de progressismo – que não é equivalente a uma teleologia, como se os autores se fossem superando uns aos outros – é independente, de facto, dos nomes que são escolhidos: podiam lá estar outros, podiam lá estar Sophia, Eugénio, Lobo Antunes, que a lógica seria a mesma, aquela em que o autor é o crédito que usamos para nos melhorarmos, para construir um futuro que será, se não formos recalcitrantes a este tipo de retórica, esta promessa de felicidade. Numa época em que o pensamento sobre a literatura era bastante mais entusiasmado do que actualmente – o que talvez se ligue à própria experimentação que acontecia, que obrigava o teórico a tentar pensar certos objectos para os quais não tinha, à partida, as ferramentas necessárias – Roland Barthes falava de uma Sociedade dos Amigos do Texto: “Os seus membros não teriam nada em comum (pois não existe forçosamente acordo sobre os textos do prazer), a não ser os seus inimigos: maçadores de todas as espécies, que decretam a forclusão do texto e do seu prazer, quer por crítica do significante, quer por conformismo cultural, quer por racionalismo intransigente (suspeitando de uma «mística» da literatura), quer por moralismo político, quer por pragmatismo imbecil, quer por parvoíce trocista, quer por destruição do discurso, perda do desejo verbal.” Talvez seja necessário voltar a Barthes, que actualmente parece ter caído em descrédito junto do discurso público. Em todo o caso, Barthes consegue pensar uma relação não necessariamente histórica à história da literatura, uma que evita todos os cânones, qualquer canonização e qualquer crédito – uma que evita, enfim, os “maçadores de toda a espécie” que só conseguem pensar em termos históricos e avaliadores (antes varredor que juiz, como dizia um outro pensador famoso). E este conjunto de textos de crítica literária consegue, diga-se, algo de paradoxal: um conjunto de ensaios bastante interessantes, sem os vícios académicos que tornam difícil furar a cultura de especialista que pressupõem, num livro que, em si, não tem interesse algum. Diga-se, aliás, que se perdeu uma grande oportunidade: uma reunião dos melhores académicos que a Universidade Portuguesa tem, juntos num mesmo volume, e aquilo com que ficamos é um cânone, esta forma bolorenta, por maior que seja a discussão internacional em torno dela, que fica a essa compreensão histórica e avaliadora.