TIMELINES EM "COISA No 5" DE MOACIRSANTOS PDF

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5965/2525530405022020e0009

TIMELINES EM “COISA Nº 5”
DE MOACIR SANTOS
TIMELINES IN “COISA Nº 5”
BY MOACIR SANTOS

Fábio Lima Marinho Gomes1


Universidade Estadual do Paraná
[email protected]

Submetido em 31/05/2020
Aprovado em 26/08/2020

ORFEU, v.5, n.2, outubro de 2020


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TIMELINES EM “COISA Nº 5”
DE MOACIR SANTOS

Resumo Abstract

Este artigo apresenta parte da pes- This paper is part of the undergrad-
quisa de conclusão de curso sobre a pre- uate research on the use of timelines in
sença de timelines em três peças do ál- three pieces of the album “Coisas” (1965),
bum “Coisas” (1965), de Moacir Santos, by Brazilian composer Moacir Santos, pre-
defendida na FAP/UNESPAR, em 2019. O sented at FAP/UNESPAR (Curitiba, Brazil),
estudo tem como foco o aspecto rítmi- in 2019. The present study is based on
co, destacando a verticalidade das com- the rhythmic aspect, drawing attention to
posições, as texturas polirrítmicas e os the vertical perspective of the pieces, the
contrastes entre as ideias musicais articu- polyrhythmic textures and the contrasts
ladas por Moacir Santos. Este trabalho de- between the musical ideas articulated by
bruça-se sobre a peça “Coisa nº 5” e de- Moacir Santos. The aim is to demonstrate,
monstra a influência marcante da música especially in “Coisa nº 5”, the strong influ-
de matriz africana por meio das timelines, ence of African matrix through timelines,
tendo como base a gravação original e o based on the original recording and the
livro de partituras “Coisas: Cancioneiro score book “Coisas: cancioneiro Moacir
Moacir Santos”. Dessa forma, as análises Santos”. Thus, the analyses show that the
demonstram que as timelines identifica- identified timelines are customized, cre-
das são customizadas, criando combina- ating combinations with the function of
ções com a função de orientar a estrutura guiding the rhythmic structure of the piece.
rítmica da peça.

Palavras-chave: Moacir Santos. Coi- Keywords: Moacir Santos. Coisa Nº 5.


sa nº 5. Timeline. Análise Musical. Timeline. Musical Analysis.

1
Fábio Marinho é músico, professor e pesquisador com foco na música popular brasileira. Bacharel em Música Popular (FAP/Unespar),
Bacharel em Humanidades (IHAC/Ufba) e possui Qualificação Profissional em Música Afro Baiana (CFA/Funceb).

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Introdução

A obra de Moacir Santos (1926–2006) se apresenta de forma complexa e desafia-


dora, sendo gradualmente valorizada pela comunidade musical e pelo público em ge-
ral nas últimas décadas. Com uma carreira multifacetada, o músico despertou variados
olhares acadêmicos e diversas pesquisas foram feitas em nível de pós graduação, princi-
palmente após o seu falecimento (FRANÇA, 2007; DIAS, 2010; VICENTE, 2012; BONET-
TI, 2014). O álbum “Coisas” (1965) é a sua produção fonográfica de maior relevância e
foi a única lançada no Brasil, pois a partir daí o compositor desenvolveu sua trajetória
nos Estados Unidos. Este artigo deriva-se de uma pesquisa mais ampla em formato de
monografia (GOMES, 2019) a qual objetivou-se analisar a presença de timelines em
três faixas do referido álbum2. Aqui, busca-se uma análise mais criteriosa sobre o
aspecto rítmico na terceira faixa: a peça “Coisa nº 5”, que posteriormente teve uma
versão com letra in- titulada “Nanã” e acabou sendo muito difundida. Dessa forma, a
maior motivação deste estudo é entender como os elementos rítmicos são
organizados na estrutura composi- cional por meio das timelines. Essa ferramenta
possibilita um aprofundamento analítico da peça, dando foco na sua relação com
outros elementos musicais, sobretudo a melo- dia, uma vez que são notáveis os traços
da música de matriz africana em todo o álbum “Coisas”. Por sinal, a música popular
brasileira é baseada, em grande parte, na música de origem africana (SANDRONI,
2001) e, por isso, as timelines estão presentes na maioria do seu repertório
constituindo a estrutura sonora (OLIVEIRA PINTO, 1999-2001).
De acordo com a literatura, os conceitos embrionários de timeline advêm de refle-
xões acadêmicas baseadas nas experiências de pesquisadores ao se debruçarem sobre
a música da costa ocidental africana e sua complexidade rítmica (JONES, 1959; NKETIA,
1963; KUBIK, 1972; AROM, 1991)3. Assim, essas concepções de timeline foram elabo-
radas visando o entendimento estrutural e analítico ao invés de serem um suporte ou
técnica para a execução musical. Ou seja, os instrumentistas presentes nas gravações e/
ou performances (incluindo a dança, além da música) observadas pelos pesquisadores
não tinham em mente as timelines, assim como não pensaram em rítmica aditiva, po-
lirritmia, hemíola e síncope (AGAWU, 2006; FREITAS, 2010). Esses e outros termos são
conceitos musicológicos de herança europeia, que tiveram suas elaborações partindo
do princípio de que a estrutura musical, e todos os seus elementos (harmonia, melodia,
ritmo, forma etc.), encontram regularidade no repertório tradicional da Europa. O autor
desta investigação está ciente das questões que a análise estrutural de uma peça com
elementos musicais de matriz africana pode suscitar, e por isso há uma abordagem crí-
tica com relação à teoria musical de cunho eurocêntrico.
O debate teórico apresentado na primeira parte do texto contribuirá para uma
noção abrangente do conceito de timeline, não se restringindo ao viés estruturalista

2 A monografia foi apresentada como trabalho de conclusão do curso de Bacharelado em Música Popular (FAP/UNESPAR – Campus de Curitiba
II), orientada pelo Prof. Dr. Luciano Chagas Lima.

3 Conforme será visto mais adiante, Nketia (1963) foi o primeiro a utilizar o termo timeline. Porém, Jones (1959) utilizou o termo “african
signature tune” para se referir a determinados padrões rítmicos que posteriormente foram denominados timeline, a exemplo do standard
pattern – objeto central do artigo Structural Analysis or Cultural Analysis? Competing Perspectives on the “Standard Pattern” of West
African Rhythm (2006), de Agawu.

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e musicológico, considerando aspectos sociais, históricos e culturais (AGAWU, 2006;


MENEZES, 2018). Portanto, a timeline, na condição conceitual problematizada, foi eleita
como ferramenta metodológica de análise, ainda que não haja vestígios encontrados
de qualquer depoimento sobre o conhecimento da ideia geral de timeline por parte do
compositor. Esse ponto leva à questão da intencionalidade na análise musical: Moacir
Santos sabia o que era timeline e, de fato, utilizou-a em composições de forma cons-
ciente? Se não, ainda assim é possível desenvolver o conceito de timeline aplicando
na análise de estrutura rítmica? Entende-se que mesmo quando há depoimento de in-
tencionalidade, o pensamento analítico pode trilhar outros caminhos interpretativos,
enfraquecendo a ideia de que a intenção do compositor orienta a uma essência na peça
musical a ser explicada e revelada por meio da análise. Em How We Get Out of Analysis,
and How to Get Back In Again (2005), Agawu argumenta, embasando-se no pensamen-
to analítico de Theodor Adorno (1903-1969)4:

O analista não deve ser distraído pela questão da intencionalidade, como fazem
os céticos ao se perguntarem se o compositor estava consciente das relações
desenterradas pelo analista. A análise não é mera descrição, nem é limitada por
uma consideração de todos ou da totalidade; poderia, com a mesma legitimida-
de, preocupar-se com partes ou fragmentos. E cada análise deve produzir um
resultado exclusivo para o trabalho; deve trazer à tona o problema, ou – como
diríamos hoje, talvez – a problemática única de cada obra (AGAWU, 2005, p. 272,
tradução nossa)5.

Por outro lado, a intenção do compositor em criar a trilha musical para uma procis-
são de negros no contexto sócio histórico da escravidão, inserida em longa metragem
servindo de base para a gravação do álbum “Coisas”, é usada como dado importante na
análise, pois é possível fazer conexões com a influência da música de matriz africana na
peça6. Assim, a proposta analítica articulada neste trabalho leva em consideração esse
mote para investigar como Moacir Santos estruturou a rítmica por meio das timelines
em “Coisa nº 5”. O que se faz neste artigo é uma análise com foco no aspecto rítmico,
mas também incorporando elementos de ordem melódica, enfocando na parte A, que
possam auxiliar em uma melhor compreensão da peça. Com isso, priorizou-se a verti-
calidade da composição, os contrastes entre as ideias musicais articuladas por Moacir
Santos e as texturas polirrítmicas7. Antes disso, há um breve resumo biográfico do com-
positor, uma ampla discussão conceitual sobre timeline e uma contextualização do ál-

4 Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno foi um sociólogo, filósofo, musicólogo e compositor alemão do século XX que pertenceu à Escola de
Frankfurt, versando sobre indústria cultural e música popular.

5 Original: “The analyst must not be distracted by question of intentionality, as when sceptics wonder whether the composer was conscious of
relationships unearthed by the analyst. Analysis is not mere description, nor is it bound by a consideration of wholes or of totality; it could just as
legitimately concern itself with parts or fragments. And each analysis must produce a result unique to the work; it must bring out the problem,
or - as we would say today, perhaps - the unique problematic of each work”.

6 O longa metragem referido é “Ganga Zumba” (1964), de Carlos Diegues, e será abordado posteriormente junto com o depoimento de Moacir
Santos sobre a intenção.

7 O termo verticalidade refere-se à uma visão das interações rítmicas presentes na peça, do topo da partitura até o último instrumento na
grade. Por isso, as análises possuem como um dos critérios a perspectiva, ou o olhar, vertical sobre as ideias composicionais.

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bum “Coisas”, elucidando aspectos que nortearam o processo composicional. Em 2005,


Mário Adnet e José Nogueira realizaram um importante trabalho de reconstrução das
partituras originais do álbum “Coisas”, as quais desapareceram com o fim do selo For-
ma, resultando na publicação do livro de partituras “Coisas: cancioneiro Moacir Santos”
(2005), material que é fonte de consulta.

Moacir Santos

Moacir José dos Santos nasceu em 1926 entre os municípios de Serra Talhada (an-
tiga Vila Bela), Flores, São José do Belmonte e Bom Nome, no sertão pernambucano. De
acordo com a pesquisa biográfica realizada por Dias (2010), até os 16 anos, aproximada-
mente, o músico não possuía um documento que comprovasse sua data de nascimen-
to. Foi batizado na Capela de Santo Antônio do município de Bom Nome com o nome
de “Muacy”. Negro, órfão da mãe aos 3 anos de idade e com um pai ausente, Moacir
foi cursar o ginásio no município de Flores, a 340 km de Recife. Já como integrante da
Banda Municipal, Moacir recebeu o seu primeiro cachê tocando trompa nas festividades
religiosas. O período entre os 11 e 14 anos de idade foi considerado por ele como a fase
áurea de sua vida, quando tocou em vários eventos nas cidades vizinhas. Sua intuição o
levava a “apanhar sua estrela” – termo usado pelo músico em depoimento - algo seme-
lhante a uma estrela guia que norteia os caminhos de uma pessoa em busca de realiza-
ção pessoal, sentido de vida, vocação (DIAS, 2010, p. 42).
Durante a juventude, Moacir Santos percorreu várias cidades brasileiras exercendo
atividades musicais, passando pelos estados da Bahia, Paraíba, Ceará, São Paulo e Rio de
Janeiro. Na cidade do Rio de Janeiro foi onde o compositor passou a maior parte do seu
tempo trabalhando com música, tendo como destaque o emprego na Rádio Nacional
como arranjador, e posteriormente como maestro. Em 1967, dois anos após a gravação
do álbum “Coisas”, Moacir Santos muda-se para os Estados Unidos, onde foi trabalhar
com trilhas musicais para filmes na Califórnia e gravou mais quatro álbuns: “Maestro”
(Blue Note/1972), “Saudade” (Blue Note/1974), “Carnival of Spirits” (Blue Note/1975) e
“Opus 3 nº 1” (Discovery Records/1979).
Em 1998, os músicos cariocas Mario Adnet e Zé Nogueira começaram o projeto
“Ouro Negro”, que se concretizou a partir do lançamento do CD duplo em 2001, atra-
vés do selo MP,B e distribuído pela Universal, sob patrocínio da Petrobras. O repertório
inclui músicas de toda a carreira do compositor pernambucano, inclusive as “Coisas”,
com exceção da “Coisa nº 3”. Impossibilitado de tocar por conta de problemas de saú-
de, Moacir voltou ao Brasil e acompanhou as gravações do CD, fato que foi muito im-
portante na condução dos ensaios. As partituras das “Coisas”, que se perderam após o
fechamento do selo Forma, foram reescritas por Mario Adnet e Zé Nogueira e revisadas
pelo compositor (DIAS, 2010, p. 154). Anos depois, os músicos cariocas se dedicaram à
gravação do CD “Choros e Alegria”, lançado pelo selo Biscoito Fino, em 2005. O álbum
reúne choros antigos do jovem Moacir juntamente com músicas não gravadas compos-

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tas na época em que morava na cidade de Pasadena. A dupla Mario Adnet e Zé Nogueira
também lançou o “Cancioneiro Moacir Santos” (Jobim Music, 2005), que possui três
volumes com partituras do “Ouro Negro”, das “Coisas” e do álbum “Choros e Alegria”. A
publicação de todos esses trabalhos foi crucial para a revalorização da obra do compo-
sitor em solo brasileiro.
Com a saúde cada vez mais debilitada, Moacir Santos faleceu no dia 6 de agosto
de 2006, na cidade de Pasadena, estado da Califórnia, nos Estados Unidos. Noticiado na
imprensa nacional e internacional, seu falecimento foi de grande perda para a comuni-
dade musical: a estrela de “Muacy” foi brilhar em outro lugar.

Timeline

O termo timeline foi incialmente usado pelo etnomusicólogo ganense Joseph


Hanson Kwabena Nketia (1921-2019) na década de 1960, quando estudava a rítmica
musical da costa ocidental africana, significando um “ponto de referência constante
pelo qual a estrutura da frase de uma música, bem como a organização métrica linear
das frases são guiadas” (NKETIA, 1963, tradução nossa)8. A expressão obteve grande
repercussão no estudo da música africana (KUBIK, 1972; AROM, 1991; AGAWU, 2006;
AGAWU, 2016) e da música afro brasileira (OLIVEIRA PINTO, 1999-2001; SANDRONI,
2001; LEITE, 2017; RIBEIRO, 2017; MENEZES, 2018), e com isso a literatura demonstra
uma variedade de conceitos sobre timeline. Esta seção objetiva expor algumas formu-
lações conceituais e debater os pontos relevantes a serem observados na análise. O
etnomusicólogo africano Kofi Agawu, também nascido em Gana, propõe uma definição
de timeline em palestra organizada pela Library of Congress, nos Estados Unidos9. Inti-
tulada Rhythmic Imagination in African Music, a palestra apresenta os pontos centrais
do livro The African Imagination in Music (2016), de sua própria autoria. Na minutagem
36’57”, Agawu diz:

A timeline é um padrão rítmico de curta duração que é repetido na forma de


um ostinato, através de uma batida de percussão específica (...). Normalmente
atreladas ao uso de sinos, baquetas ou pedra, as timelines, muitas vezes, proje-
tam uma forma distinta e até memorável. Embora existam padrões percussivos
de pulsação imutável, a maioria das timelines exibe pelo menos dois valores de
modo contrastantes, um longo e um curto. Isso, a propósito, é outro sinal do im-
pulso minimalista que é difundido na criatividade africana. Embora a função dos
padrões timeline seja comparada, às vezes, com a de um metrônomo, há uma
diferença significativa. Diferindo do metrônomo, que demarca o tempo e com
isso ajuda a localizar a ‘parede de ataques sem acento’, as timelines esculpem o
tempo, elas são parte integrante da música. Cada timeline é, em princípio, estru-

8 Original: “A constant point of reference by which the phrase structure of a song as well as the linear metrical organization of phrases are
guided”.

9 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=uyRG9T7CGt8&t=2619s. Acesso em: 30 mar. 2019.

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turalmente dependente de uma fundação metronômica anterior (AGAWU, 2017,


informação verbal, tradução nossa) 10.

Percebe-se nesta definição de Agawu as seguintes características da timeline: a)


padrão rítmico de curta duração, em forma de ostinato, tocado por instrumentos per-
cussivos11; b) pulsação constante com dois valores de duração contrastantes; c) possui
função distinta daquela do metrônomo, uma vez que integra a música ao invés de aju-
dar a localizar o tempo de maneira externa à música. Em seguida, serão apresentados
alguns conceitos formulados por pesquisadores brasileiros acompanhados de discus-
sões.
Oliveira Pinto (1999-2001) busca sistematizar as estruturas sonoras da música afro
brasileira, que possui como alicerce a música de matriz africana. Segundo o autor, as
tradições musicais africanas se alastraram pelo continente americano originando, em
combinação com as tradições musicais dos povos originários, uma vasta lista de gêne-
ros populares afro americanos, na qual o blues, a rumba, o reggae, o jazz, o son cuba-
no, a milonga, a salsa e o tango estão presentes. Com enfoque nas estruturas sonoras,
Oliveira Pinto, após os resultados de pesquisa da musicologia africana em convergência
com as pesquisas feitas no Brasil, relata: “encontramos estruturas sonoras que perdu-
raram durante sua história (no Brasil) e que marcam as músicas afro-brasileiras” (OLI-
VEIRA PINTO, 1999-2001, p.91). Uma destas estruturas sonoras é a timeline, que o autor
traduz como “linha rítmica” e nos apresenta exemplos da sua inserção no samba e no
candomblé, duas importantes manifestações da música afro brasileira. Segundo ele, “os
time-line-pattern estão inseridos em uma grande variedade de repertórios de música
brasileira e funcionam como linha rítmica de orientação para as demais partes da músi-
ca na sua sequência temporal” (OLIVEIRA PINTO, 1999-2001, p.95).
Menezes (2018), ao investigar como se deu a influência da música africana no Bra-
sil, considera a formação do sistema atlântico escravista na colonização do país como
alicerce desse entendimento, em que a diáspora africana envolveu a convivência for-
çada de povos distintos. A historicidade é um elemento fundamental para a compreen-
são desse fenômeno, e por isso é preciso combater as tendências de descolamento da
análise musical, em geral, com relação à contextualização social, cultural e histórica de
perspectiva crítica. Entendendo esse processo, o autor trata da formação do samba ur-
bano carioca, especificamente sobre seus padrões rítmicos, a partir da coexistência de
diferentes práticas musicais ali existentes no período colonial projetada no século XX.
Por isso, não há como tratar de timeline sem mencionar esse passado e sem considerar
questões culturais africanas, tais como a tradição, a oralidade e a dança.

10 Original: “A timeline is a rhythmic pattern of modest lenght that is repeated in a manner of austinato throughout a particular dance drumming
(...). Normally entrusted to the bell or custonet or sticks or stone, timelines often project a distinct perhaps even memorable shape. Although there
are bells and sticks patterns made up of unchanging pulsation, the majority of timelines display at least two contrasting node values, a long and
a short. This, by the way, is another sign of the minimalist impulse that is widespread in african creativity. Although the function of timeline pat-
terns is sometimes likened to that of a metronome, there is a significant difference. Unlike metronomes wich mark time and thus help to locate
patterns against a wall of accentless strikes, timelines carve time, they are integral to the music. Each individual timeline is in principle structurally
dependent on prior metronomic foundation”.

11 Ostinato é uma palavra italiana que significa obstinado, em tradução literal para o português. Como termo musical, traz a ideia de repetição
de uma frase rítmica e/ou melódica.

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Embora a timeline se mantenha como elemento estruturante da música afro bra-


sileira, Oliveira Pinto constata que “no Brasil houve uma ressignificação do time-line¬
africano em relação ao seu novo meio musical (...). Há momentos em que certas batidas
do time-line são suprimidas, como se pode verificar com frequência na MPB” (OLIVEIRA
PINTO, 1999-2001, p.97). Neste caso, o autor se refere aos momentos, principalmente
na prática do samba, em que a timeline não é tocada exclusiva e integralmente por um
determinado instrumento, sendo distribuída através das diferentes partes instrumentais
e funcionando como referência interna para os músicos. Segundo ele, o fato de o pa-
drão rítmico da timeline não estar sendo “marcado com a batida de um tamborim, não
significa que a fórmula não esteja presente no fazer musical. É mentalizada pelos mú-
sicos e inerente às diferentes sequências instrumentais do conjunto” (OLIVEIRA PINTO,
1999-2001, p.99).12
Sandroni (2001), por sua vez, traduz o termo timeline como “linha-guia” e elabora
o seguinte conceito:

Em muitos repertórios musicais da África Negra, ‘linhas-guia’ representadas por


palmas, ou por instrumentos de percussão de timbre agudo e penetrante (como
idiofones metálicos do tipo do nosso agogô), funcionam como uma espécie de
metrônomo, um orientador sonoro que possibilita a coordenação geral em meio
a polirritmias de estonteante complexidade. O fato é que essas ‘linhas-guia’ têm
especial predileção por fórmulas assimétricas como as mencionadas, que são,
então, repetidas em ostinato estrito, do início ao fim de certas peças (SANDRO-
NI, 2001, p.31).

Desta maneira, de acordo com Sandroni a timeline: a) é produzida por instrumen-


tos de percussão de timbre agudo; b) assemelha-se ao metrônomo, funcionando como
um orientador sonoro13; c) possui, em sua maioria, fórmulas assimétricas executadas
em longas repetições. No que concerne à semelhança com o metrônomo como um
orientador sonoro, o autor traz a ideia de “ostinato variado”, termo criado pelo etno-
musicólogo franco-israelense Simha Arom. Sandroni afirma que “(...) a fórmula rítmica
assimétrica ora é repetida, ora variada através de improvisações do músico responsável
pela ‘linha-guia’. Estas variações em muitos casos obedecem ao princípio da subdivisão,
ou seja, a decomposição de valores menores (...)” (SANDRONI, 2001, p.25). Assim, a ti-
meline, embora seja geralmente executada da mesma maneira em toda a música (osti-
nato estrito), não é sempre reproduzida de forma regular, podendo incorporar variações
(ostinato variado).
Já com relação às fórmulas assimétricas executadas em longas repetições, o autor
apresenta as expressões “cometricidade”, “contrametricidade” e “síncope” para explicar
as fórmulas assimétricas das timelines. As expressões “cometricidade” e “contrametri-
cidade” são usadas por Simha Arom e por Mieczyslaw Kolinski (1901-1981), e o termo

12 A internalização da timeline pelos músicos será melhor tratada adiante através de Leite (2017).

13 A semelhança da timeline com o metrônomo pode ser lida na citação anterior de Agawu (2017) e também será abordada em detalhe
mais adiante nas reflexões de Ribeiro (2017).

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“síncope” advém do sistema de notação musical europeu do século XIX. Essas expres-
sões foram criadas para designar o tipo da articulação rítmica associada à métrica da
musicalidade europeia. Ou seja, se a articulação é irregular à métrica, ela é contramétri-
ca. Sandroni afirma: “uma articulação rítmica será dita cométrica quando ocorrer na pri-
meira, terceira, quinta ou sétima semicolcheia do 2/4; será dita contramétrica quando
ocorrer nas posições restantes, à condição de não ser seguida por nova articulação na
posição seguinte” (SANDRONI, 2001, p.26-27). Para Sandroni, a “síncope” surgiu quan-
do os compositores europeus do século XIX quiseram representar em suas partituras os
ritmos africanos que ouviam, grosso modo14. Porém, esses ritmos misturam as divisões
rítmicas binária e ternária enquanto a concepção rítmica europeia (de tradição clás-
sico-romântica) é baseada na separação dessas divisões. Como o sistema de notação
utilizado pelos compositores não prevê a coexistência de grupos rítmicos binários e
ternários, esses ritmos foram considerados irregulares e compostos por “síncopes”, por
meio do recurso das ligaduras (SANDRONI, 2001, p.26). Ele explica:

Nossa teoria musical clássica prevê dois tipos de compasso, os simples e os


compostos. Nos compassos simples, as unidades de tempo são binárias. Por
exemplo, nos compassos 2/4, 3/4 e 4/4, a unidades de tempo são as semíni-
mas, que, dividindo-se sempre por dois, serão equivalentes a duas colcheias ou
quatro semicolcheias etc. (Os casos em que semínimas são divididas do modo
ternário constituem exceções à regra, são chamados de ‘quiálteras’ e exigem
sinalização especial). Por outro lado, nos compassos compostos, como o 6/8
ou o 9/8, as unidades de tempo são ternárias e são representadas por semí-
nimas pontuadas (divididas portanto em três colcheias). Mas o fato é que não
há compassos que misturem de modo sistemático agrupamentos de duas e de
três pulsações, como semínimas e semínimas pontuadas. É precisamente esta
mistura que vai desempenhar um papel muito importante nas músicas da África
subsaariana (SANDRONI, 2001, p.24).

Dito isto, a assimetria presente nas timelines a que Sandroni se refere, advém do
termo “imparidade rítmica” cunhado por Simha Arom. Ao estudar a música africana,
Arom (1991) constatou que a combinação dos agrupamentos binários e ternários re-
sultava sempre em um período rítmico par na soma, porém com sua estrutura interna
ímpar, ou seja, assimétrica (SANDRONI, 2001, p.24).

Fig. 1 – Assimetria na timeline (tresillo).

14 Para aprofundamento sobre a síncope e sua história conceitual, recomenda-se a leitura de Freitas (2010). Em artigo, o autor faz uma crite-
riosa análise histórica da síncope na tradição europeia, relacionada ao tratamento melódico/harmônico, antes de problematizar a síncope como
uma espécie de DNA rítmico da música brasileira.

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Fig. 2 – Assimetria na timeline. Período rítmico par em sua soma, com 8 pulsações internas, porém, apresenta disposição
interna ímpar: 3 + 3 + 2.

Letieres Leite (2017)15 buscou justificar a importância da timeline na música de ma-


triz africana ao escrever sobre a aplicação do seu “Método Universo Percussivo Baiano”
(UPB) na primeira turma do Laboratório Musical Rumpilezzinho16. Para se referir à time-
line, ele adota o termo em espanhol “clave”, oriundo do sistema musical cubano, e que
literalmente significa “chave” em português, sugerindo um elemento responsável pela
conexão com a estrutura rítmica da música, podendo “abrir portas” – a propósito, o
termo “clave” também pode ser traduzido como truque, macete ou segredo em sentido
figurado. Segundo Leite:

CLAVES – AS CHAVES RÍTMICAS: Também conhecidas como ‘linhas-guia’, ‘time-


-line’, ‘padrão rítmico’, ‘toque’ (nas religiões afro-brasileiras). Ao longo deste re-
lato, seguirei adotando a denominação ‘clave’, pelo fato de ter me ‘iniciado’ com
músicos cubanos nesta matéria. Em suma, ‘clave’ pode ser entendida como a
menor porção rítmica que define não só um ritmo, como aponta para a sua loca-
lização geográfica, sua origem e percurso étnico e histórico (LEITE, 2017, p.18).

Seu interesse na complexidade rítmica da música brasileira o levou a concluir, atra-


vés das suas pesquisas, que a perspectiva musical europeia (modelo dominante nas ins-
tituições de ensino) não é suficiente para explicar as peculiaridades da cultura musical
nacional (LEITE, 2017, p.17). Considerando a música brasileira estruturada pelos ele-
mentos da música africana, principalmente no que tange às suas organizações rítmicas,
Leite converge com as ideias de Oliveira Pinto e Sandroni, já explicitadas anteriormente.
Ao afirmar que a clave é o segredo, ele diz: “percebi que nossa música (brasileira) era
constituída e estruturada da mesma forma que a música cubana, inclusive pelas influên-
cias comuns de matrizes africanas, e que as claves se mantinham, mas mudavam apenas
seus acompanhamentos (...)” (LEITE, 2017, p.22).
Dessa forma, Leite (2017) ressalta a importância da timeline através do processo
denominado “clave consciente”, originado em Cuba, aprendido com o maestro Alfredo

15 Criador, maestro, compositor, arranjador e multi-instrumentista da Orkestra Rumpilezz, grupo instrumental baiano de música matricial
africana formado por percussão e sopros. Em 2019, a orquestra gravou um álbum de releituras das “Coisas”, de Moacir Santos.

16 Projeto de formação musical de jovens idealizado por Letieres Leite na cidade de Salvador (BA), em 2014. Foi vencedor do edital do programa
Natura Musical do respectivo ano e desenvolve atividades de prática em conjunto, arranjo, composição e história da música afro baiana. O dimi-
nutivo refere-se à Orkestra Rumpilezz, sugerindo uma orquestra mirim.

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De La Fé (1954) no período que morou e estudou em Viena, Áustria 17. O processo da


“clave consciente” envolve uma conexão entre o arranjo e a execução instrumental de
um determinado conjunto musical. Segundo Leite, essa coesão é que deixa as músicas
“amarradas”, por meio de muito rigor rítmico visando interiorizar a timeline. O termo
“amarrar” se refere ao entrosamento dos instrumentistas, que reflete a organização e
a qualidade do arranjo. Já o termo “consciente” envolve o entendimento da clave por
parte dos instrumentistas, na medida em que o corpo processa a informação rítmica de
forma satisfatória e coerente. A transmissão oral da clave possibilita que o músico rece-
ba a informação por outro caminho, que não o do processo racional da leitura musical
através de uma partitura. As claves são transmitidas e recebidas por outros sistemas de
cognição, proporcionando um entendimento pelo corpo, uma “apropriação corporal”
(LEITE, 2017, p.43).
Ao versar sobre a rítmica aditiva, Ribeiro (2017) discute seus componentes fun-
damentais: pulso, ritmo, polimetria, polirritmia, hemíola, periodicidade, timeline, entre
outros. A notação musical europeia pode gerar incoerências ao tentar organizar a mú-
sica de matriz africana, uma vez que esta é baseada no conceito aditivo de rítmica e não
possui acentos regulares. Um exemplo é o uso equivocado de fórmulas de compasso
ocidentais, que acabam gerando acentuações inexistentes. Pelo fato da timeline apre-
sentar, necessariamente, uma estrutura interna assimétrica, sua representação relacio-
na-se mais com uma concepção aditiva do que divisiva. A soma de dois grupos rítmicos
irregulares remonta à adição. Constata-se que o ritmo, pela lógica aditiva, necessita de
uma periodicidade para existir, na qual se materializa pela acentuação do pulso. Dessa
forma, a construção das timelines se dá pelas acentuações das pulsações de menor va-
lor (elementares):

Fig. 3 – Formação da timeline por meio de acentuações em compasso ternário


simples.

Fig. 4 – Efeito rítmico das acentuações.

17 Alfredo Manuel De La Fé, violinista de origem cubana radicado em Nova Iorque. É considerado o responsável por destacar e inovar a forma
de tocar o violino no gênero da salsa e da música latina.

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Chega-se ao conceito de timeline elaborado por Ribeiro:

Timeline ou linha guia é o termo empregado para representar uma linha rítmica
curta, distinta, de ciclo simples, executada por palmas ou por um instrumento de
percussão de timbre agudo que serve como referência temporal em meio a out-
ras linhas rítmicas simultâneas. (...) As timelines caracterizam-se por serem cícli-
cas e por não admitirem variações. Podem ser chamadas também de bell pat-
tern, topos, clave, referência de fraseado ou linha temporal e podem ser tocadas,
por exemplo, por um agogô ou um par de claves. Representam uma camada da
textura rítmica que se forma por tambores, chocalhos, palmas de vozes que dão
suporte ou criam contraste durante uma performance (RIBEIRO, 2017, p.104).

Uma das principais características da musicalidade afro americana, ela salienta


que a timeline “não se trata apenas de um período musical básico estabelecido por um
instrumento, mas uma estrutura rítmica moldada que influencia todos os aspectos da
música e da dança” (RIBEIRO, 2017, p.104). Essa estrutura rítmica se assemelha a um os-
tinato, de modo que é executada por meio de uma frase curta com periodicidade invari-
ável, podendo existir duas ou mais através de contraponto. Assim, cada timeline pode se
movimentar de forma independente, originando o cross rhythm, que é o cruzamento de
padrões rítmicos distintos. Ribeiro afirma que “as timelines caracterizam-se por serem
cíclicas e por não admitirem variações” (AROM, 1991 apud RIBEIRO, 2017, p.104) e neste
ponto converge com a ideia de um metrônomo. Porém, elas podem ser executadas em
qualquer lugar do ciclo:

Uma vez iniciado o ciclo, ele se repete imutável ao longo da peça. Tal limitação
é uma das razões pela qual alguns estudos fazem uma analogia entre a timeline
como função de metrônomo. Esta analogia não é muito feliz, pois o metrônomo
mensura o tempo com unidades repetitivas isócronas e amorfas enquanto que
a timeline molda o dimensionamento temporal por séries rítmicas geradas por
imparidades de 5 pulsos (2 + 3), 7 pulsos (2 + 2 + 3) ou 9 pulsos (2 + 2 + 2 + 3),
dispostas em uma ordenação plena de significado (RIBEIRO, 2017, p.109).

A definição dada por Agawu apresentada anteriormente aponta justamente para


esta diferença com relação ao metrônomo. Para o autor, o ponto principal está no fato
de o metrônomo marcar o tempo ao invés de esculpi-lo, enquanto a timeline usa um
ritmo esculpido para marcar o tempo (AGAWU, 2006, p. 7). Desse jeito, “mais que uma
pontuação metronômica de tempo: (a timeline) é uma fórmula rítmica/semântica assi-
métrica que sustenta o tempo de uma música polirrítmica complexa” (RIBEIRO, 2017,
p.109). Agregando o pensamento de Leite (2017), a timeline não precisa ser tocada por
algum instrumento no contexto da música afro brasileira, uma vez que a melodia e o
suporte rítmico/harmônico de acompanhamento já estão in clave, devido à consciência
de clave mencionada anteriormente18. É algo similar ao que Freitas (2010), ao problema-

18 O termo in clave significa estar dentro da clave, ou seja, executar frases musicais inseridas na articulação proposta por uma
determinada timeline. Assim, a música já vai estar in clave se for executada com a consciência de clave, sem necessariamente haver um
instrumentista tocando a timeline de forma estrita.

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tizar o conceito de síncope, atribui a um modo de expressão musical que não envolve
uma questão exclusiva da composição. Segundo ele, “é um componente de interpreta-
ção e performance, um tipo de pronúncia ou sotaque que atua também (...) no tecido
rítmico dos ‘acompanhamentos’ destas melodias” (FREITAS, 2010, p. 141).

Álbum “Coisas”

Foi no cenário plural e culturalmente agitado do Rio de Janeiro da década de 1960


que Moacir Santos organizou as suas “coisas” e lançou seu primeiro LP, em 1965, pelo
selo Forma19. Fora de catálogo durante décadas, o álbum ganhou versão remasterizada
em CD, como afirma Dias: “Mario Adnet e Zé Nogueira, associados ao produtor João
Linhares, coordenaram, em 2004, a reedição do LP Coisas em CD remasterizado a partir
da fita original, de 1965, e lançado pela Universal” (DIAS, 2010, p.161). Em 2013, a grava-
dora Polysom relançou o LP “Coisas” em vinil de 180 gramas, pela coleção Clássicos em
Vinil. O álbum, com suas dez faixas, é um marco na música instrumental brasileira por
conta de sua forte singularidade sonora (FRANÇA, 2007; DIAS, 2010; VICENTE, 2012;
BONETTI, 2014). Por possuir grande admiração e encanto pela música de concerto,
Moacir Santos quis nomear suas músicas seguindo a tradição clássica do opus, termo
latino que significa “obra”. Porém, ao invés de chamá-las de “Opus nº 1”, “Opus nº 2”,
preferiu “Coisa nº 1”, “Coisa n° 2” etc. França (2007) teve a oportunidade de entrevistar o
compositor em abril de 2006. Sobre o título “Coisas”, o compositor comenta:

(...) eu, quando na minha vida de estudos, fiquei muito entusiasmado com a eru-
dição, o clássico... eu fiquei agarrado com a palavra opus. Quando eu cheguei na
gravação, a convite do Baden, no estúdio, o moço desceu da ... técnica e disse:
maestro, qual é o nome dessa... aí eu disse: isso é uma coisa. Por que? Porque eu
gostaria de dizer opus 5, number tal, mas é uma coisa muito elevada para mim.
Pelo menos naquela ocasião, naquela época... Mas eu sei que eu estou muito
mais maduro, em vez de opus qualquer, no popular, jazz. Mas eu ainda não posso
dizer opus, não, porque eu sempre fui admirador do clássico também, a música
erudita, quer dizer, desenvolvimento e etc... então é uma coisa: Coisa nº 1, Coisa
nº 2... (FRANÇA, 2007, p.142-143).

De acordo com Bonetti (2014)20, parte do disco origina-se da trilha sonora com-
posta por Santos para os filmes “Ganga Zumba” e “O Beijo”, de Carlos Diegues e Flá-
vio Tambellini, respectivamente, ambos lançados em 1964. Segundo o pesquisador, as
“Coisas” de número 4, 5 e 9 são desdobramentos da trilha sonora em “Ganga Zumba”

19 Fundado por Wadih Gebara e Roberto Quartin no Rio de Janeiro, o selo Forma voltava-se à produção e difusão de artistas de pouca projeção
no cenário nacional, em oposição às grandes gravadoras Philips, Odeon, RCA e CBS.

20 Lucas Zangirolami Bonetti é criador e produtor do projeto “Trilhas Musicais de Moacir Santos” (Itaú Cultural/FAPESP), que visa sistematizar,
analisar e divulgar as trilhas sonoras compostas por Moacir Santos ao longo de sua carreira em plataforma digital. As transcrições musicais con-
tam com revisão do pianista André Mehmari e inclui depoimentos de Andrea Ernest Dias, Ney Carrasco, Paulo Tiné, Mario Adnet, Moacir Santos
Jr., Zé Nogueira, Wynton Marsalis, entre outros. Disponível em: http://www.trilhasmoacirsantos.com.br/.

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enquanto as “Coisas” de número 2 e 8 tiveram origem na trilha de “O Beijo”. Sobre a


trilha sonora de “Ganga Zumba”, Dias (2010) explica a sua importância para o processo
composicional das “Coisas” (1965):

A trilha sonora de Ganga Zumba antecipou sonoridade que se tornaria a marca


característica de Moacir Santos a partir do lançamento do seminal LP Coisas, em
1965, pelo selo Forma. Constam na trilha, além do tema de abertura ‘Nanã’, os
que posteriormente conhecidos como ‘Coisa nº 4’, ‘Coisa nº 9’ e ‘Mãe Iracema’,
em instrumentações que variam do tratamento a capella às combinações tím-
bricas de piccolo, flauta, clarinete, clarone, fagote, saxofone, trombone e per-
cussão, em que predomina a utilização de atabaques e tímpanos. Ganga Zumba
funcionou como uma espécie de laboratório para o LP Coisas (grifo meu) (DIAS,
2010, p.107).

Essas e outras “coisas” já vinham sendo anotadas por Santos em um caderno, cha-
mado por Dias de caderno “Pré-Coisas”. Observa-se na lista abaixo (Fig. 5) que cada
“Coisa” possui um padrão rítmico aplicado à melodia que funciona como mote da com-
posição.

Fig. 5 – Manuscrito de Moacir Santos no caderno “Pré-Coisas”. Fonte: Dias (2010).

Esses padrões são oriundos dos “Ritmos MS” juntamente com a influência da di-
versidade de ritmos afro brasileiros que nortearam o processo composicional de Moacir
Santos no álbum “Coisas”. Os “Ritmos MS” foram criados pelo músico, com a denomina-
ção aludindo às suas iniciais, como um recurso pedagógico e composicional, como será
visto mais adiante. Segundo Dias, “trata-se de pequenos padrões rítmicos que, combi-
nados entre si, resultam na criação de motivos ou temas melódicos” (DIAS, 2010, p.77).

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Fig. 6 – Exercícios de combinação dos “Ritmos MS”. Fonte: Dias (2010).

O crítico musical Sérgio Porto (1923-1968), em matéria para o jornal Última Hora,
sinaliza para as timelines, ainda que de forma menos técnica, ao tratar da repetição que
os instrumentos percussivos executam no primeiro LP do músico pernambucano: “o
tom afro das músicas de Moacir é incontestável e sua maneira de fazer de qualquer ins-
trumento, um instrumento de percussão, às vezes de forma exaustiva (grifo meu) (...)”.
Portanto, as timelines constituem uma ferramenta essencial para a análise das “Coisas”
de Moacir Santos, principalmente no que se refere à questão rítmica, que será discutida
em detalhe a seguir.

Análise

As composições do álbum “Coisas” encontram fundamento em alguns exercícios


rítmicos que o músico pernambucano criava para seus alunos na década de 1960, no
Rio de Janeiro. Moacir Santos ensinou pontos importantes da teoria musical a Baden
Powell, por exemplo, e parte desses ensinamentos resultou nos “Afro-sambas”, que são
um “conjunto de temas modais compostos por Baden Powell a partir dos exercícios de
composição sobre os modos gregos que Moacir aplicava em seus cursos, segundo de-
poimento do violonista” (DIAS, 2010, p.75)21. Os “Ritmos MS” faziam parte da estrutura
rítmica que Santos ensinava aos seus alunos e o uso que atribuía à combinação desses
ritmos pode ser remetido aos conceitos de timeline. A partir de uma motivação compo-
sicional, os “Ritmos MS” serviam como orientação rítmica na música, sejam executados
por instrumentos melódicos, harmônicos ou percussivos.
Dias (2010) identificou, com auxílio de percussionistas, os ritmos que podem ser
associados às composições do álbum “Coisas” e as de número 4, 5 e 9 foram remetidas
ao toque de candomblé denominado alujá. No entanto, Lühning (1990), ao se aprofun-
dar na música do candomblé, afirma que o alujá é um ritmo solístico que tem como
base uma timeline de 12 pulsações iguais22, a qual é identificada por Cardoso (2006)

21 Composto por Baden Powell e Vinícius de Moraes, “Os Afro-sambas” (1966) é um álbum com forte sonoridade de matriz africana, principal-
mente no que se refere à música de candomblé, atrelada ao samba.

22 Termo usado por Kubik (1972) para se referir às menores porções rítmicas de uma frase. Na notação utilizada (fig. 7), cada pulsação é repre-

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como vassi (Fig. 7)23. Agawu (2006) debruça-se sobre esse padrão rítmico, denominado
standard pattern pelos pesquisadores, elegendo-o como a principal timeline executada
na costa ocidental africana e que, consequentemente, foi objeto de análise na maioria
das pesquisas já feitas sobre o tema.

Fig. 7 – Timeline (Vassi).

Essa figuração rítmica remete-se à ideia geral de timeline, pois é executada por
um instrumento percussivo agudo (agogô) de maneira cíclica e repetitiva, orientando as
variações dos atabaques do candomblé: o rum, rumpi e lé. No entanto, nota-se que o
compositor fez uma customização rítmica, visto que as timelines foram criadas por ele
mesmo, ainda que faça alusão a esse padrão rítmico. Vicente e Dias comentam:

Das dez Coisas de Moacir Santos, a nº 1 e nº 10, assim como várias de suas com-
posições têm como referência o toque ijexá para a construção da levada da se-
ção rítmica, em uma concepção não estritamente ligada à linha-guia. As grava-
ções de Coisas (1965) são possivelmente as primeiras a proporem e estilizarem
este ritmo dentro no mercado fonográfico brasileiro, que se tornou constante ao
longo da produção de Moacir Santos (VICENTE, 2012, p.88).

No plano rítmico, fica clara a opção de Moacir Santos por estilizar os padrões da
cultura musical afro-brasileira, dando ao conjunto de Coisas uma caracterização
única na sonoridade instrumental dos anos 60, alcançada tanto pela associação
da instrumentação usual das bandas de música e big-bands jazzísticas à percus-
são típica dessa tradição cultural (atabaques, agogôs, afoxés, etc.) quanto pelo
tratamento polirrítmico dispensado ao contraponto (DIAS, 2010, p.14).

No mesmo sentido, França (2007) aponta para a criação da timeline em “Coisa nº


5”, quando discute a suposta referência do “jongo da Serrinha” na composição:

Enfatizamos, no entanto, que não se pode afirmar que a levada utilizada por
Moacir Santos seja retirada da levada do jongo da Serrinha, mas, somente, que
são semelhantes. Acreditamos que não haja uma levada única, original, da qual
Santos retirou material para uma estilização (grifo meu) e sim que, sendo Moacir
Santos um músico profissional atuante desde a infância em diversas cidades do
país, que cultivava a música afro-brasileira (...), o material utilizado para a criação

sentada por uma colcheia, necessitando de 12 colcheias para preencher o ciclo da timeline.

23 Segundo Lühning (1990, p. 120), a timeline identificado por Cardoso (2006, p. 260) como vassi, é uma fórmula de organização rítmica
que compõe a base de vários ritmos solísticos além do vassi, como a avaninha e o ibí, e é a responsável por acompanhar a maioria das
cantigas do candomblé.

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de uma nova levada (grifo meu) vinha do seu arcabouço musical adquirido por
sua vivência (...) (FRANÇA, 2007, p.117).

Coisa Nº 5

Conforme mencionado anteriormente, a “Coisa nº 5” possui origem no filme “Gan-


ga Zumba” (1964), de Carlos Diegues. No entanto, na gravação do disco “Coisas” ob-
serva-se que ela agrega os seguintes elementos: a seção introdutória aparece no “tema
de procissão a Palmares” e as partes A e B, juntamente com a Coda, estão contidas no
“tema principal”24. Nas aparições do filme, os dois temas possuem, ao todo, a seguinte
instrumentação: voz, piccolo, flauta de bambu, clarinete, clarone, trompete, trombone,
agogô e atabaque (BONETTI, 2014). Já na versão para o álbum “Coisas”, os instrumen-
tos são: flauta, trompete, sax alto, sax tenor, sax barítono, trompa, trombone, trombone
baixo, guitarra, contrabaixo acústico e percussão (ADNET; NOGUEIRA, 2005). Posterior-
mente, a “Coisa nº 5” teve uma versão com letra de Mário Telles que foi intitulada “Nanã”
e lançada no álbum “The Maestro” (1972), sem a seção introdutória:

Fica claro que Moacir, para compor a versão da “Coisa nº 5” presente no álbum
Coisas, utilizou o material composicional de dois fragmentos diferentes de sua
trilha para Ganga Zumba. A introdução foi desenvolvida por meio do “tema da
procissão a Palmares” e o corpo principal da música a partir do “tema principal”.
Já a composição de “Nanã”, presente no disco The Maestro de 1972, só se baseia
no “tema principal” (BONETTI, 2014, p.283).

Moacir Santos escreve no encarte do CD “Ouro Negro”: “Fico muito feliz de vo-
cês terem gravado a versão original, porque foi assim que ouvi e assim que fiz. É uma
grande procissão” (SANTOS, 2001, p.17). Em depoimento nas gravações do DVD “Ouro
Negro” (2005), o músico comenta que a música foi pensada a partir de uma procissão
de negros25. Nessa mesma ocasião, é ressaltado o caráter binário da composição, quan-
do Zé Nogueira e Moacir Santos cantam a melodia da parte A e marcam o tempo com
as mãos. No “Caderno Pré-Coisas”, a anotação para a trilha de “Ganga Zumba” revela
o compasso binário simples (2/4) na melodia principal e o compasso binário composto
(6/8) na parte intitulada “ritmo”.

24 Estas denominações temáticas foram dadas por Bonetti (2014).

25 Depoimento contido em trecho extraído do DVD “Ouro Negro”, em que Moacir Santos conversa com Mário Adnet e José Nogueira. Disponível
em: https://www.youtube.com/watch?v=gVeE7WZG_IY. Acesso em: 23 out, 2019.

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Fig. 8 – Anotações para a trilha sonora de “Ganga Zumba” (1965). Fonte: Dias (2010).

Entretanto, no livro de partituras “Coisas: Cancioneiro Moacir Santos” (2005), que


contou com revisão do próprio compositor, a música está escrita toda em compasso
binário composto (6/8), por isso, esta configuração será mantida na presente análise.
De acordo com Bonetti, “essa ambiguidade se dá pois ao se sobrepor os planos rítmicos
simples e composto o compositor (ou transcritor) pode escolher se basear em qualquer
um deles, utilizando quiálteras para encaixar a rítmica diferente” (BONETTI, 2014, p.65).
Na metade da seção introdutória, é revelada a sonoridade resultante da combi-
nação entre melodia principal (flauta, trompete, sax alto e sax tenor), miolo (trompa e
trombone), ostinato (sax barítono, trombone baixo e contrabaixo) e percussões.

Fig. 9 – “Coisa nº 5” redução da textura da seção introdutória.

O miolo executa duínas (quiálteras de dois tempos em compasso composto) em


contraste com a divisão do ostinato.

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Fig. 10 – “Coisa nº 5” hemíola na seção introdutória.

Moacir Santos comenta em entrevista a França: “Tem uma coisa chamada hemíola.
(...) eu uso muito hemíola, o dois para três” (FRANÇA, 2007, p.141). Trata-se de um fenô-
meno rítmico em que há uma coexistência de dois e três pulsos no mesmo intervalo de
tempo ou, como afirmam Cooper e Meyer, “no qual a oposição de três grupos tocados
contra dois grupos de três (2+2+2/3+3) é resolvido depois de seis tempos” (COOPER;
MEYER, 1960 apud VICENTE, 2012, p.93). Sobre a “Coisa nº 5”, Dias ressalta que “o plano
rítmico é todo estruturado na perspectiva polirrítmica, justapondo agrupamentos biná-
rios a ternários (grifo meu), (...) uma das características do mundo sonoro afro-ociden-
tal” (DIAS, 2010, p.213). Finalmente, Ribeiro comenta:

Uma vez que um compasso 3/4 e o compasso 6/8 têm o mesmo número de
colcheias, é possível mudar o agrupamento binário de três colcheias para um
agrupamento ternário de duas colcheias. Esta troca entre binários e ternários
no mesmo nível métrico, chamada ocidentalmente de hemíola (grifo meu) (...)
(RIBEIRO, 2017, p.98).

A marcação feita pelo ostinato e pelo agogô apontam para a formação de uma
timeline na introdução da música. Conforme mencionado anteriormente, pelo fato de
ser um instrumento percussivo de timbre agudo que possui linha rítmica cíclica repetida
ao longo da música, o padrão rítmico do agogô é priorizado nesta parte como orienta-
dor rítmico.

Fig. 11 – “Coisa nº 5” timeline na seção introdutória.

No final da seção introdutória, o Ritmo MS 1 (colcheia + duas semicolcheias – Fig.


6) está presente na caixa clara. Em 6/8, este ritmo gera um efeito de hemíola, pois é ar-
ticulado três vezes em dois tempos.

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Fig. 12 – “Coisa nº 5” Ritmo MS 1 na caixa clara (compassos 20 e 21).

Reescrevendo esse trecho em 3/4, o Ritmo MS 1 torna-se mais evidente.

Fig. 13 – “Coisa nº 5” Ritmo MS 1 em 3/4.

Mais adiante, entretanto, a acentuação executada pela caixa clara remete ao Ritmo
MS 2 (duas semicolcheias + colcheia, ou seja, uma inversão do Ritmo MS 1).

Fig. 14 – “Coisa nº 5” Ritmo MS 2 e timeline na caixa clara (compassos 22 e 23).

Esta unidade é repetida quatro vezes, finalizando com um quinto ataque do rulo
no segundo compasso. É importante atentar para a seguinte observação: em dois com-
passos binários compostos (somando quatro tempos no total), com a subdivisão de três
colcheias em cada tempo, há cinco acentuações na execução da caixa, sendo que a
última rompe com a regularidade dos motivos. Esse padrão rítmico se mantém durante
quase toda a música e pode ser considerado uma timeline, pois, além de ser executado
por um instrumento percussivo agudo, tem uma irregularidade interna. Assim, ele tam-
bém pode ser encarado como orientador rítmico na composição, sobretudo porque o
último ataque na caixa contraria a duração regular dos anteriores. Fazendo uma redu-
ção do padrão rítmico da Figura 17 com base nas acentuações, obtém-se a seguinte
timeline:

Fig. 15 – “Coisa nº 5” redução da timeline (compassos 22 e 23).

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A parte A, enfoque desta análise, é formada por uma frase melódica de oito com-
passos com um desenho periódico, ou seja, uma ideia básica de dois compassos segui-
da por uma ideia contrastante, executada pelo sax barítono e trombone.

Fig. 16 – “Coisa nº 5” melodia principal - parte A.

Em uma primeira versão, a “Coisa nº 5” foi escrita em 2/4, como se pode compro-
var nos esboços contidos no “Caderno Pré-Coisas” do compositor (ver Fig. 5). Com a
finalidade de comparar a escrita das duas versões, as figuras abaixo mostram o trecho
inicial da melodia no “tema principal” e na parte A da “Coisa nº 5” em 2/4 e 6/8, res-
pectivamente26. Além das fórmulas de compasso, é importante também perceber as
diferenças rítmicas entre as duas frases melódicas ocasionadas por diferentes padrões
rítmicos no acompanhamento, que funcionam como um molde que esculpe a melodia
(AGAWU, 2006; AGAWU, 2017).

Fig. 17 – “Coisa nº 5” tema principal em 2/4.

Fig. 18 – “Coisa nº 5” tema principal em 6/8.

A melodia principal da parte A (Fig. 16) é moldada pela interação do miolo com o
ostinato na seção rítmica, presente na figura abaixo. Desta vez o miolo é executado pelo
trompete, saxofones alto e tenor, trompa e guitarra (que condensa as quatro vozes dos
sopros) enquanto o ostinato é composto somente pelo trombone baixo e contrabaixo.

26 As melodias das Figuras 17 e 18 encontram-se uma oitava abaixo em comparação à melodia presente na Figura 16.

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Esta ideia possui uma unidade de dois compassos que é repetida cinco vezes.

Fig. 19 – “Coisa nº 5” interação entre miolo e ostinato.

Para esclarecer, observa-se que a primeira parte da melodia (Fig. 18), composta
pelas primeiras 9 notas, já revela o molde firmado pela interação acima (Fig. 19). A figura
abaixo reúne o curto trecho da melodia principal e seu acompanhamento (miolo + osti-
nato)27. Com isso, contata-se que o acompanhamento funciona como uma timeline, na
medida em que esculpe a melodia.

Fig. 20 – “Coisa nº 5” início da melodia principal e acompanhamento

Em uma visão vertical, constata-se que os padrões rítmicos da Figura 19 se com-


plementam. É possível relacionar aquela figuração com o mojo, que é “uma nova estili-
zação rítmica de concepção pessoal, (...) levada criada pelo compositor (Moacir Santos)
que se tornou conhecida no meio musical” (FRANÇA, 2007, p.90)28. Segundo Dias, ao
criar “um jogo contrapontístico entre graves e agudos (grifo meu), o compositor faz
com que os instrumentos melódicos e harmônicos também participem da ideia percus-
siva que constitui o mojo” (DIAS, 2010, p.175). Certamente, o mojo é um traço marcante
da sonoridade de Santos. Em entrevista a França, ele conta sobre a sua criação:
E: Sobre a fase dos Estados Unidos, o Sr. criou um ritmo que é chamado de
Mojo...
M: Eu cheguei lá nos Estados eu vi um ritmo... então eu criei o Mojo, eu inventei

27 Para facilitar a visualização na Fig. 20, o acompanhamento está escrito na clave de sol e a parte do ostinato (graves) está uma oitava acima.

28 Na cultura afro americana, mojo é um pequeno objeto ou bolsa que representa magia, feitiço ou amuleto. Geralmente, é utilizado na
prática do hoodoo ou voodoo.

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essa palavra: Mojo [...] vindo do negro americano.


E: O Sr. criou esse ritmo porque os músicos americanos tinham dificuldade de
tocar samba?
M: Não, criei por vaidade mesmo, porque ouvi uma expressão negroide, da Áfri-
ca. O negro foi espalhado pelo mundo inteiro. Então, naturalmente, o negro
americano veio da África. Ele é diferente, anda diferente. Então eu inventei uma
coisa diferente também, como um negro brasileiro, semi-americano (FRANÇA,
2007, p.144).

Em uma redução incluindo o miolo e o ostinato em uma mesma pauta, percebe-se


mais claramente a relação com o mojo através de duas alturas: uma grave (ostinato) e
outra aguda (miolo). Vale ressaltar que o exemplo abaixo representa uma das várias fi-
gurações possíveis do mojo.

Fig. 21 – “Coisa nº 5” mojo.

Na figura abaixo, verifica-se que a redução da timeline da caixa clara (Fig. 18) está
presente no mojo através das acentuações. Assim, de certa maneira o mojo pode ser
visto como uma variação desta timeline reduzida.

Fig. 22 – “Coisa nº 5” timeline x mojo.

A figura abaixo mostra as interações e os contrastes entre o miolo, o ostinato e a


caixa clara na parte A. Dessa maneira, observa-se de forma vertical momentos de com-
plementariedade e de sobreposição na textura do acompanhamento elaborado pelo
compositor, servindo de base para a melodia principal na parte A em “Coisa nº 5”.

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Fig. 23 – “Coisa nº 5” seção rítmica.

Considerações Finais

Este trabalho teve como objetivo principal analisar o aspecto rítmico em “Coisa
nº 5”, de Moacir Santos, tendo com base a timeline como ferramenta metodológica.
Procurou-se demonstrar como a música de matriz africana, especificamente da costa
ocidental, está presente na obra de Moacir Santos por meio de sua estrutura rítmica.
Através de uma ampla discussão sobre timeline, suas definições e implicações, este ar-
tigo propôs contextualizar e problematizar a formulação conceitual elaborada por um
viés unicamente estrutural, que não considera as questões sociais, históricas e culturais
que envolvem as timelines e, por conseguinte, as práticas musicais do oeste africano.
Assim, foi possível constatar a pluralidade nos conceitos, descartando uma visão defi-
nitiva sobre timeline, que se encontram em um processo de construção marcado por
discordâncias e disputas. Assim como a timeline, outros conceitos elaborados pela mu-
sicologia de herança europeia foram concebidos pela lógica da regularidade suposta-
mente encontrada no repertório tradicional da Europa. Diante disso, a questão passa a
ser cultural também, pois manifestações musicais não europeias são classificadas como
irregulares, fugitivas do padrão (AGAWU, 2006; FREITAS, 2010; LEITE, 2017; MENEZES,
2018). O texto da primeira parte deste trabalho foi calcado numa abordagem crítica ao
eurocentrismo presente na temática.
Em seguida, houve um aprofundamento analítico na relação das timelines presen-
tes no acompanhamento com a melodia principal em “Coisa nº 5”, enfocando a parte A
da peça. O olhar vertical sob as linhas instrumentais foi fundamental para a percepção
dos contrastes musicais articulados pelo compositor e das texturas polirrítmicas. Foi
interessante notar, especificamente, como Moacir Santos engendrou duas esferas de
interação rítmica na peça analisada. A primeira é composta pela melodia principal e
seu acompanhamento executado por toda a seção rítmica. Nela, foram observadas as
questões principais a serem comprovadas nesta pesquisa, relativas à estruturação rítmi-
ca da peça, em que o acompanhamento exerce o papel de timeline ao moldar, basear

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e/ou esculpir a melodia (Fig. 20). Já a segunda esfera de interação acontece dentro da
seção rítmica, ou seja, é formada por suas relações internas entre o miolo, ostinato e
caixa (Fig. 23). Em resumo, a melodia principal é esculpida por um acompanhamento
já esculpido internamente. Em um primeiro momento de audição, o ouvinte tende a
perceber a seção rítmica de forma fragmentada, sem assimilar suas relações internas, e
posteriormente o entendimento mais amplo começa a ser feito.
É nesse sentido que esta investigação aponta para resultados concernentes à cus-
tomização feita por Moacir Santos em “Coisa nº 5” ao criar as esferas de interação des-
critas acima em seu processo composicional, construindo uma sólida estrutura rítmica,
principalmente na parte A. As análises indicam que a customização dos padrões rítmi-
cos pode ser atribuída ao papel que as timelines cumprem na música da costa ocidental
africana, na medida em que orienta a estrutura rítmica, principalmente no que se refere
à relação da melodia principal com o seu acompanhamento.

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