PRIEN
PRIEN
p. 23
O conceito de diáspora, cunhado somente no século XIX, se aplica aos imigrantes
evangélicos de origem alemã no Brasil na medida em que com ele se designam “as
minorias de uma confissão entre cristãos de outro credo, sendo que a minoria sequer
possui uma organização eclesiástica própria, ou vive em pequenas comunidades e
Igrejas de diáspora”. No caso desses imigrantes, sua situação de diáspora no exterior era
inclusive dupla, ou seja, simultaneamente uma diáspora eclesiástica e uma diáspora
étnica.
p. 24
O estudo de uma Igreja que se formou de emigrantes alemães tem que começar com a
pergunta pelas circunstancias que levaram pessoas a emigrar da pátria e sob que
condições isso aconteceu, visto que, metodologicamente, parece imprescindível
entender e interpretar a História da Igreja no contexto socioeconômico e político. Pela
natureza do presente trabalho, é possível oferecer somente algumas informações
sumárias, que não podem suprir a lacuna existente neste ponto na pesquisa da história
eclesiástica.
p.25
Com freqüência se cita como motivação para a emigração o desejo de possuir um
pedaço de terra próprio. Esse desejo deveria ser melhor elucidado no contexto das
estruturas agrárias dos estados alemães no século XIX. A miséria econômica e a
superpopulação, em proporção diferente nos diversos territórios alemães, foram o pano
de fundo da disposição para emigrar. O fator desencadeador foi o inverno de fome de
1816/17 no sudoeste alemão. Os anos de 1816-1825 designam simultaneamente uma
fase de extremo crescimento populacional, que levou a um índice médio de crescimento
anual de 1,42%, o mais elevado de todo o século XIX, referente ao futuro território do
Reich de 1871. No século XIX iriam emigrar de terras alemãs aproximadamente 10
milhões de pessoas (entre 1860-1930, da Europa 35 milhões somente para os EUA),
provocando desse modo, de longe, a maior movimentação de habitantes desde a
migração dos povos. A parcela dos que emigraram para o Brasil foi relativamente
modesta. De 1815 até 1848 devem ter sido no máximo 15 mil pessoas, de 1850-1859:
15.815, de 1860-1895: 63.370. Os números efetivos são mais elevados, visto que a
estatística brasileira se limita ao território do Reich Alemão de 1871. As quotas anuais
de emigrantes foram influenciadas por acontecimentos políticos como a revolução ode
1848, as guerras de 1864, 1866 e 1870/71, pela guerra do Paraguai de 1864-1870, crises
econômicas e o esforço de outros países no sentido de atraírem os “cobiçados
imigrantes alemães”.
p.26-27
O fato de recrutadores brasileiros atuarem exclusivamente no território alemão na
primeira metade do século XIX explica-se por dois fatores: primeiro, pela ligação da
dinastia de Habsburgo com a casa real portuguesa, respectivamente com a posterior casa
imperial do Brasil – Dom Pedro, o herdeiro do trono português, havia se casado com
Leopoldina de Habsburgo, em 1817; e em segundo lugar, pela boa reputação dos
alemães como colonizadores, portanto como representantes da “religião do trabalho”,
como se expressou certa vez o antropólogo brasileiro Schaden.
O início da emigração de alemães para o Brasil coincidiu com a primeira tentativa de
povoamento com teuto-suíços, em 1817, em Nova Friburgo, no interior do Rio de
Janeiro. O Brasil era terra virgem para emigrantes, o que estimulou sua fantasia. Ainda
não se tinham informações sobre sofrimento e miséria dos emigrantes. Em Württemberg
o clero foi encarregado de advertir as pessoas dispostas a emigrar sobre os riscos da
emigração, não, porém, porque o governo os quisesse reter, e, sim, porque os queria
“preservar da desgraça e de um retorno empobrecido”, querendo, portanto, também
evitar possíveis encargos sociais no caso de retorno.
(...)
Embora o movimento emigratório tivesse sido motivado especialmente pela miséria
econômica, resultante, entre outras, da explosão demográfica e dos efeitos colaterais da
revolução industrial, também existiram motivos religiosos, que se expressam, por
exemplo, no seguinte hino de emigrantes:
Somos chamados por Deus, do contrário a idéia jamais nos teria ocorrido.
Essa é a nossa fé e nos pomos a caminho por ordem dele.
Deus disse a Abraão: sai da tua terra
para a terra que te mostrarei, por minha mão poderosa.
Também nós confiamos firmemente em Deus, em sua santa palavra.
Assim agora partimos para o Brasil.
p.33
Como a fundação da comunidade anglicana no exterior foi um subproduto de interesses
comerciais britânicos, assim o transplante de protestantes alemães para o Brasil foi um
subproduto de interesses socioeconômicos brasileiros. Desde a primeira lei de imigração
de 16 de fevereiro de 1813, todas as medidas para o apoio de imigrantes europeus
previam, até 1824, inicialmente só a admissão de imigrantes católicos romanos.
Somente a constituição de 1824, redigida por Dom Pedro I com a ajuda de seu Conselho
de Estado sob a influência do espírito liberal-maçônico, concedeu no Art. 5º a não-
católicos o exercício privado, enquanto o exercício público da religião – à semelhança
do que consta na Patente de Tolerância Josefina de 1781 – ficou reservado à Igreja
Católica Romana como guardiã da religião do Estado.
O interesse socioeconômico na imigração – o crescimento populacional é, sabidamente,
um aspecto típico da política econômica absolutista do mercantilismo (“governar
significa povoar”) – se evidencia com especial clareza num relatório do ministro Pedro
de Araújo Lima dirigido à Assembléia Geral Constituinte do ano de 1828:
O Brasil tem que
Ver crescer o número de sus filhos no mínimo na mesma proporção do que acontece
nos Estados Unidos da América (...) O tráfico de escravos diminui e deparamo-nos com
a necessidade de preencher a lacuna. É preciso garantir a pessoa e a propriedade,
criar liberdades para a agricultura e ofícios, garantir os contratos entre proprietários e
arrendatários, especialmente no caso de estrangeiros, facilitar a aquisição de meios de
subsistência: isso atrairá braços, dinheiro e indústria (...)! O Brasil necessita de
braços, laboriosos e trabalhadores.
p. 34
O discurso acerca dos “braços” que o Brasil estaria precisando ainda está determinado
inteiramente pelo espírito da sociedade escravagista colonial que, desde sempre, não via
os seres humanos na mão-de-obra, quer fossem índios ou negros, e, sim, somente seus
braços úteis para o trabalho!
Homens previdentes estavam “convictos de que a economia do Império teria que
procurar outras bases o mais depressa possível, e isso no sentido de fazer com que a
terra fosse trabalhada não mais por escravos, e, sim, por agricultores livres. Essa era
uma das razões principais também da imigração alemã: precisava-se de mão-de-obra
para a agricultura. Nesse motivo histórico-econômico residem as raízes do problema dos
teuto-brasileiros, que o antropólogo Egon Schaden descreveu do seguinte modo em
1954:
Os imigrantes tinham plena consciência do seu papel e de sua tarefa – não queriam e
não deveriam incialmente ser outra coisa senão pregadores da “religião do trabalho”.
Para os brasileiros era indiferente se sabiam ler e escrever e se seus filhos o
aprendiam, se eram assíduos frequentadores da igreja ou se jogavam bolão aos
domingos – o que interessava é que roçassem muito, plantassem muito e colhessem
muito.
p.35-36
Entrementes se haviam formado no Brasil, por iniciativa, imperial, provincial e
particular, os seguintes tipos de colonização:
1. Colônias imperiais, p. ex. Nova Friburgo/RJ – 1817/24; São Leopoldo/RS 1824; Três
Forquilhas (evangélico)/RS (...)
O desenvolvimento dessas colônias não dependia apenas em alto grau das capacidades
do respectivo diretor, e, sim, como se pode imaginar, também da localização e da
qualidade do solo.
p. 37
Evidentemente, também a Alemanha perseguia interesses econômicos com o projeto de
colonização, pois a chamada “Sociedade Colonizadora” era, na realidade, uma
Sociedade Anônima, apoiada pelos interesses do capitalismo comercial liberal, que já
lucrava pelo crescimento da frota comercial em virtude da emigração. Os emigrantes
lotavam os navios por completo ou parcialmente na viagem de ida; na volta eram
transportadas mercadorias para Hamburgo. E assim que os emigrantes se tornassem
economicamente ativos no Brasil, também se tornariam interessantes como produtores
de matérias-primas e consumidores de produtos acabados.
p.59
Somente poucas levas de migrantes tiveram o privilégio de viajar acompanhadas de um
pastor, muito menos na companhia do clérigo de sua comunidade de origem, como foi o
caso da leva que fundaria a primeira comunidade evangélica no Brasil, em 1824, em
Nova Friburgo, no interior do Rio de Janeiro. Acompanhemos o caminho daqueles 342
emigrantes evangélicos de Rheinhessen, da comunidade de Becherbach perto de Kirn,
que o major brasileiro Schaeffer havia recrutado. Seu pastor, Friedrich Oswald
Sauerbronn (1784-1867), tomou a decisão de acompanhar os membros de sua
comunidade em seu caminho para um futuro incerto. Durante a travessia
excessivamente longa de 122 dias de Amsterdã ao Rio de Janeiro com a fragata
holandesa “Argo”, faleceram a esposa de Sauerbronn no parto do décimo filho, bem
como 11 homens e duas crianças, de modo que em Nova Friburgo ele teve que
imediatamente preocupar-se com o casamento das viúvas, porque as dificuldades
iniciais na terra ruim, com lotes muito distantes uns dos outros, somente podiam ser
vencidas por famílias inteiras. Embora Sauerbronn recebesse, de acordo com seu
contrato, subsídios do governo imperial, esses eram tão parcos que muitas vezes carecia
dos artigos de primeira necessidade. Ainda em 1840 anotou, num levantamento da
comunidade, atrás de seu nome: “este é que se encontra na pior situação”. No entanto,
arbitrando desavenças e conflitos matrimoniais, conquistou cada vez mais a confiança
de sua gente.
Palavras redigidas em 1936 pelo P. Martin Begrich, ativo no Brasil, ainda falam do
ideal da casa pastoram protestante que entre nós se desvaneceu há muito: em 1825
Sauerbronn contraiu segundas núpcias
com a filha do colono Jakob Storck. Desse matrimônio nasceram mais uma vez 14
crianças. Dos 24 filhos dos dois matrimônios, levou três à sepultura. Todos os demais
se tornaram cidadãos honrados. Chegaram a posições respeitadas nos círculos mais
ilustres da sociedade brasileira. Que bênção emanou de uma casa pastoral em posto
avançado! – Os últimos anos do nobre pároco foram serenos. Através dos filhos, a
família havia adquirido certa prosperidade. Quem, todavia, vive por três gerações
experimenta algo da sabedoria dos colonos: a primeira geração morre, a segunda
perece, a terceira conquista.
p. 60
No Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil, existia já nos anos 20 um número
maior de artesãos e comerciantes alemães de confissão evangélica, bem como
reformados teuto-suíços e francófonos. No Rio de Janeiro havia, como foi mencionado
anteriormente, uma comunidade anglicana no exterior, cuja capela fora inaugura da em
1819. A iniciativa para a fundação de uma comunidade alemã partiu do cônsul
prussiano de então, Wilhelm Theremin. O motivo da fundação de uma comunidade e a
constituição da comunidade na sede do governo são característicos de uma comunidade
no exterior, que sempre espera ajuda da pátria e confia menos em seus próprios recursos
do que autênticas comunidades de imigrantes, que surgiram em sua maioria em
ambiente rural. O exemplo do Rio de Janeiro vale, portanto, para comunidades
semelhantes em São Paulo e Porto Alegre.
Em sua convocação para a fundação da comunidade, Theremin escreveu, no final de
1826: “A fim de chegarmos mais rapidamente ao objetivo, estamos decididos a reunir
numa só comunidade ambos os dialetos, alemão e francês”, até que cada grupo estivesse
suficientemente forte para manter sua própria comunidade. Na ata de fundação de 16 de
junho de 1827, fala-se da primeira reunião “dos membros da fé protestante evangélica”.
A fundação seria condicional, ou seja, sob a condição de que se recebesse do Rio de
Janeiro e da pátria dinheiro suficiente e um pastor. Theremin deveria solicitar do rei da
Prússia o devido apoio para a “união não somente dos dois idiomas nacionais, mas
também a união das opiniões religiosas comprometidas com os dogmas de Martinho
Lutero e Calvino”. O ponto de partida da comunidade, portanto, era pragmático-
ecumênico, livre de idéias étnico-nacionais, que também não se encontram em parte
alguma nas jovens comunidades brasileiras antes da fundação do Segundo Reich em
1871.
p. 71
Até aqui já se evidenciou o quanto a fundação de comunidades dependia da iniciativa
dos colonos. A motivação dos colonos terá sido um anseio mais ou menos consciente.
Psicologicamente, a “Lembrança do domingo no povoado pátrio” deve ter
desempenhado “um papel importante”. “Há anseio pelo som do órgão e o dobrar dos
sinos, por canto comunitário e pregação.” Uma vez construídas a igreja, a escola e a
casa pastoral com as próprias mãos e o pastor sendo remunerado com recursos próprios
dos colonos – isso transmite “uma sensação de unidade”, que se manifestava em
palavras como “nossa” igreja e “nossa” escola, mas também, como mencionado acima,
“nosso” pastor no sentido de “nosso empregado”!
p.72
Visto que, em face da falta de apoio das Igrejas alemãs da pátria nos primeiros 40 anos
da imigração, era impossível, na maioria dos casos, encontrar um pastor ordenado,
procedeu-se de modo mais intuitivo do que consciente segundo o conselho de Lutero à
comunidade de Leisnig, da Saxônia Eleitoral, no ano de 1523: “Direito e autoridade de
uma assembléia ou comunidade cristã de julgar toda doutrina, chamar, nomear e
destituir pregadores – fundamento e razão da Escritura. Em sua situação de emergência,
os colonos sentiram, para citar a Lutero, que “a comunidade cristã não pode nem deve
ficar sem a palavra de Deus”, que “precisa de professores e pregadores do céu, eles têm
que convoca-los das suas próprias fileiras e instalar os “que são idôneos para isso e os
quais Deus iluminou com entendimento e ainda dotou de talentos”.
É admirável que pessoas das Igrejas territoriais alemãs, que eram Igrejas autoritárias em
sua estrutura e que pouco se importavam com a educação de seus membros para que se
tornassem cristãos emancipados, responsáveis também em questões de Igreja, como os
queria Lutero em Leisnig, se esforçassem por agir com a construção de uma nova
existência no Brasil, e escolhessem de suas fileiras homens, na maioria das vezes sem
formação teológica, como seus pastores! Não admira que, nesse procedimento, não
praticassem uma ordenação formal. Mas faziam edificação de comunidade a partir da
base; formavam, portanto, comunidades de base na verdadeira acepção da palavra.
p. 73-74
(...) também deve ser considerado o segundo concelho de Lutero, em seu escrito de
1523: que um cristão não deve insinuar-se ele mesmo no ministério da pregação; mas
“espere até qe seja convocado para pregar e ensinar no lugar e por ordem dos demais”.
p.76-77
Voltemos nosso olhar novamente para o Brasil. O acima mencionado decreto de 1861
representou em si um grande progresso para os evangélicos, pois punha fim ao período
da discriminação legal, Ainda no início de 1861, o P. Eugen Schmidt havia descrito,
num relatório sobre a comunidade do Rio de Janeiro para o Sup. Cons. Ecles. Evang.
[Evangelischer Oberkirchenrat], em Berlim, as lamentáveis conseqüências do não-
reconhecimento dos casamentos protestantes.
Visto que os matrimônios evangélicos eram equiparados a concubinatos, cresceu entre
os protestantes a tendência de, em caso de conflito, abandonar o parceiro legalmente
desprotegido nos termos do Estado, portanto, tomar o divórcio em suas próprias mãos.
Em outubro do mesmo ano, o ministro real das Relações Exteriores, conde von
Bernstorff, escreveu para o Brasil que as restrições principais do governo prussiano “a
uma ampliação de nossas relações oficiais com as comunidades evangélicas no Brasil”,
isto é, essencialmente ao envio de pastores, seriam retiradas caso a “constatação da
validade civil de matrimônios não-católicos” estivesse legalmente garantida.
Depois que o dito decreto nº 1.144 de 11 de setembro de 1861, passou a ser aplicado
pelas disposições da regulamentação de 17 de abril de 1863, o enviado prussiano von
Eichmann visitou o Rio Grande do Sul e solicitou ao governo prussiano que
providenciasse junto ao Sup. Cons. Ecles. Evang. o envio de um pastor a São Leopoldo,
com o que se deu o início de ajuda de Berlim em termos de pessoal. Quero observar, de
passagem, que no Império também depois de 1861 os clérigos protestantes estavam
proibidos de conceder a bênção matrimonial a um matrimônio misto, sob ameaça de
punição. Esse direito ficou reservado aos clérigos católicos, que condicionavam esse
casamento a uma declaração de compromisso com a educação católica das crianças. Por
meio desse expediente o protestantismo perdeu não poucas crianças.
Dohms denomina “o ano de 1860 como ano de transição” para a formação da Igreja
evangélica entre os imigrantes alemães.
Segundo o material por ele divulgado, pode-se denominar o ano de 1860, antes, como
ponto zero absoluto. As subvenções do governo imperial para pastores coloniais iam se
acabando paulatinamente. Os poucos pastores imigrados com os colonos estavam
velhos – Voges em Três Forquilhas já alcançara os 60, Sauerbronn em Nova Friburgo
estava com 76 –, ou já tinha morrido, como Klingelhöffer (1838), ou tinham renunciado
ao pastorado, como Ehlers, cujo sucessor Klenze viria a morrer em 1861, em São
Leopoldo.
p.80-81
Quase nada se sabe sobre a teologia da primeira geração de pastores que atuaram no
Brasil. Nossas pesquisas, porém, trouxeram à luz um escrito não datado da autoria de
Sauerbronn, o primeiro pastor que atuou no Brasil, que leva o título Theologischer
Standpunkt [“Posição Teológica”]. Esse escrito nos proporciona uma ideia do
pensamento teológico de um pastor alemão atuante no Brasil na primeira metade do
século XIX, embora, naturalmente, o documento não possa ter a pretensão de ser
representativo para os demais pastores de então atuantes no Brasil.
Sauerbronn se revela como representante da neologia. Escreve ele: “Meu ponto de vista
é e sempre foi o supranaturalista.” Afasta-se claramente do racionalismo iluminista: “A
razão humana não é uma capacidade que existe por si mesma.” Sauerbronn mantém-se
fiel à doutrina da inspiração da Escritura como conseqüência do dogma da divindade de
Cristo, Ao rejeitar, porém, a inspiração verbal defendida pela ortodoxia e confessar-se,
em contrapartida, junto com August Friedrich Wilhelm Sack (1703-86), fiel à
substância dos símbolos cristão, ele se revela como típico neólogo. Sauerbronn
distingue a substância compromissiva da Bíblia de sua compreensão científica e forma e
das interpretações de determinadas passagens bíblicas que ele entende como
condicionadas pela época. E observa: “Quem conhece bem os escritos de
Schleiermacher (1787-1868) e Sack não poderá negar que a orientação básica da
teologia moderna vai no sentido de demonstrar o fato da revelação cristã como
fundamentado e enraizado na consciência cristã.”
Nesse espaço de pensamento teológico entre a neologia, a escola de Schleiermacher, a
teologia do despertamento e da mediação, Sauerbronn procura relacionar a compreensão
de revelação do neoprotestantismo, em última análise subjetiva, baseada na experiência,
com a Bíblia como base normativa da fé reformatória:
No que diz respeito à minha relação com a doutrina da Igreja, declaro-me de todo
coração fiel a nossos símbolos protestantes, segundo sua substância, confesso que a
Sagrada Escritura é a norma e regra suprema de nossa fé e vida, que o ser humano se
torna justo somente pela fé em Jesus, que, todavia, de modo algum é apenas uma notitia
historiae, mas que necessariamente inclui um ser cativado por Cristo, que Cristo é o
supremo, invisível chefe de sua Igreja e que ele a governa continuamente.
Portanto, Sauerbronn procura lidar com as conseqüências do iluminismo com base na
teologia reformatória e dos escritos confessionais, sem cair no fundamentalismo na
linha do Sínodo Missúri, que se formava em sua época na América do Norte. Em todo
caso, sua “Posição” mostra de modo surpreendente que um pastor da mata virgem, não
obstante todo o seu isolamento, não estava fadado necessariamente a perder o contato
com a teologia contemporânea e podia expressar claramente sua posição em meio a uma
insegurança denominacional causada pela atuação de missionários norte-americanos
bem como ao questionamento da revelação pelos livres-pensadores europeus.
p.83-84
Na esfera eclesiástico-religiosa, a época do Império se caracteriza pelos seguintes fatos:
“o regalismo, o aniquilamento das ordens religiosas, o desprestígio do clero, a reação
enérgica mas efêmera do episcopado e do elemento católico contra as usurpações do
poder público, o racionalismo e o ceticismo das classes dirigentes. A decadência da
instituição eclesiástica até meados do século XIX não se explica apenas pelas condições
desfavoráveis do Império de então, mas também pela debilidade interior da Igreja, que
não conseguiu reagir aos desafios do tempo, que, em última análise, representavam uma
conseqüência do iluminismo. Somente pela atuação dos bispos reformadores da segunda
metade do século XIX iria acontecer uma lenta mudança.
O regalismo da classe alta, no entanto, se voltava somente contra o poder secular da
Igreja Católica, não contra sua doutrina. A classe alta tolerava ou favorecia a presença
de denominações protestantes como contrapeso para a “religião imperial”, mas lhe
permaneceu fiel. O desinteresse das elites no catolicismo e nua educação católica privou
a Igreja da camada intelectual dominante do país e conduziu necessariamente à
degeneração do catolicismo popular, no qual a massa do povo, especialmente a
população rural, ficou entregue à própria sorte. Outra conseqüência do abandono
religioso da população rural e de sua opressão e exploração pela nobreza rural foram os
movimentos messiânicos do século XIX, que foram abafados brutalmente no Império
em concordância com a Igreja oficial, que estava perplexa em relação a eles.
p.86
Para os imigrantes evangélicos, era especialmente problemático o fato de que os bispos
exerciam a jurisdição das coisas espirituais, entre as quais figuravam também assuntos
matrimoniais. Eles a exerciam através de vigários-gerais e vigários. E não era raro o
caso em que o padre também era “simultaneamente vigário para a jurisdição em sua
paróquia”.
p.92
Mesmo quando se toma em consideração a indignação e polêmica presentes no
posicionamento de Rotermund ou de seu biógrafo Fusel, permanece o fato de que a
Igreja Católica brasileira tentou defender sua posição em relação aos protestantes não
apenas com argumentos teológicos, e, sim, também com meios demagógicos e com a
ajuda do Estado, até que esta última lhe foi tirada pela Proclamação da República em 15
de novembro de 1889 ou pela separação de Igreja e Estado daí decorrente, em 7 de
janeiro de 1890.
p.93-95
Continuemos no Rio de Janeiro e voltemos nosso olhar para os primórdios da
comunidade. Como já foi mencionado, a comunidade se havia constituído em 1827
provisoriamente como “Comunidade Franco-Alemã” de luteranos e calvinistas. Aí se
experimentou, portanto, de uma forma singular de colaboração ecumênica. Por isso, a
afirmação de Dreher de que a Comunidade do Rio de Janeiro “foi a única congregação
na qual se pode constatar desde o início uma ligação conscientemente mais estreita de
Igreja e germanismo não parece plausível pela falta de provas convincentes.
As longas dores de parto da comunidade de 1827 a 1837 parecem ter levado a um
declínio ao menos do interesse administrativo dos suíços de língua francesa, de modo
que o primeiro relatório anual impresso de 1835 foi publicado somente em língua
alemã. Parece que o P. Neumann não dominava o francês. O fato de os primeiros
estatutos de 1844 falarem de “Igreja Evangélica Alemã no Rio de Janeiro” dificilmente
pode ser tomado como expressão de uma mentalidade especialmente etnicista, e, sim,
apenas como denominação da composição efetiva da comunidade. A escolha do
estagiário de Teologia Ludwig Winkler, em 1849, é fundamentada expressamente com
o fato de que “ele também estava em condições de realizar o desejado culto em
francês”, e disso se segue que aí não predominava uma mentalidade etnicista obstinada.
De 1849 a 1891 realizaram-se, então, cultos em língua francesa no primeiro domingo de
cada mês, até que o número de suíços de fala francesa diminuiu a tal ponto que essa
prática foi abandonada. Em 1849, por intermediação do cônsul-geral suíço, um grupo de
reformados francófonos, especialmente suíços, haviam se associado à comunidade. Em
1853, dos 243 membros pagantes (isso é, famílias) nada menos que 49 faziam parte do
“anexo suíço”. Em 1857, os suíços requereram uma modificação dos estatutos, segundo
a qual não mais pertenciam à comunidade individualmente, e, sim, como Corporação
Suíça com comissão eclesiástica própria, que se comunicava com a comunidade através
de um membro eleito e podia fixar sua contribuição anual em termos globais. O cônsul
suíço deveria receber, daí por diante, regularmente um extrato com os ofícios dos
Registros Eclesiásticos. Aparentemente, a parceria da comunidade com o Sup. Cons.
Ecles. Evang., que em sua situação de isolamento era importante não apenas do ponto
de vista financeiro, não perturbou os suíços.
p. 102
Para o desenvolvimento das comunidades de imigrantes e seu processo de formação de
Igreja iria tornar-se da maior importância a separação de Estado e Igreja Católica
Romana, determinada pela constituição de 1890.
Na constituição de 1890 estabeleceu-se no Título IV, Sec. 2, Art. 72, o seguinte:
§ 3º Todos os indivíduos e confissões religiosas podem exercer pública e
livremente o seu culto, associando-se para esse fim, e adquirindo bens,
observados os limites postos pelas leis de mão-morta.
§ 4º A república só reconhece o casamento civil, que precederá sempre as
cerimônias religiosas de qualquer culto.
§ 5º Os cemitérios terão caráter secular, e serão administrados pela autoridade
municipal.
§ 6º Será leigo o ensino ministrado nos estabelecimentos públicos.
§ 7º Nenhum culto ou igreja gozará de subvenção oficial, nem terá relações de
dependência ou aliança com o Governo da União, ou dos Estados.
§ 8º É excluída do país a companhia dos Jesuítas e proibida a fundação de novos
conventos, ou ordens monásticas.
A revolução também introduziu o casamento civil e os registros civis, bem como a
“Grande Naturalização”, segundo a qual se concedia a cidadania brasileira a todas as
pessoas radicadas no Brasil em 15/11/1889, desde que não apresentassem objeção.
Nesse sentido, a revolução significou, para os protestantes de origem alemã, o
coroamento de sua luta por igualdade de direitos religiosos e políticos, embora fossem
monarquistas em sua maioria e, simultaneamente, partidários do Partido Liberal, e os
republicanos vitoriosos assumissem atitude negativa em relação aos teutos e
especialmente ao direito, defendido por von Koseritz bem como por Rotermund, de
preservar sua identidade lingüístico-étnica.
O fato de o Estado da Primeira República retirar-se completamente da Igreja,
remetendo-a, inclusive em termos jurídicos, à esfera privada, de acordo com o
pensamento liberal, com a ajuda do direito das sociedades, naturalmente atingiu de
modo mais duro a Igreja estatal Católica Romana. Mas, como a Igreja tradicional da
grande maioria dos brasileiros, e no século XX apoiada no crescente nativismo, ela
jamais deixou de tentar, com sucesso crescente, penetrar novamente na esfera estatal.
Em conseqüência de sua idéia de ordo, ela promoveu, inclusive durante a República,
“com insistência o culto da autoridade pública”, recomendando-se assim como apoio ao
status quo!
p.184-185
A ruptura das relações diplomáticas com o Reich e a posterior declaração de guerra por
parte no Brasil não levaram, em 1917, a atos de violência contra o patrimônio da Igreja
que fossem dignos de nota, OS estados sulistas foram colocados em estado de sítio. NO
final de 1917, as escolas alemãs foram fechadas progressivamente, e, por fim, inclusive
o uso da língua alemã foi proibido. As forças nativistas receberam um forte empuxo, o
que prenunciava coisas piores para o futuro de instituições eclesiásticas que, por razões
teológicas e ideológicas, se haviam comprometido com o cultivo da língua, da cultura e
dos costumes alemães.
Todavia, a disposição de aprender com a experiência da proibição de cultos em alemão
era minguada, começando pelo prepósito Braunschweig e estendendo-se até a classe
pastoral. Já em 1919 se retomaram os costumes anteriores, embora durante a República
de Weimar a promoção do trabalho etnicista por parte do Ministério das Relações
Exteriores fosse consideravelmente mais modesta. Todos os sínodos desdobraram uma
movimentada atividade criativa em favor das pessoas sofredoras do Reich. Volumosas
doações de mantimentos e agasalhos foram embarcadas para a Alemanha.
p.186
A debilidade da Igreja-Mãe alemã depois da Primeira Guerra Mundial patenteou ao
luteranismo americano possibilidades de ajuda e tomada de influência no Brasil. Era
esse o objetivo de uma viagem de informação feira por representantes eclesiásticos
norte-americanos em meados de 1919. Relações mais estreitas seriam atadas somente
com o Sín Evang. Lut. Por causa de sua prática de contribuições baixas, o Sín. Evang.
Lut. era ainda mais dependente de auxílio exterior do que os demais sínodos. A primeira
metade da década de 20 se caracteriza por negociações intensivas do Sín. Evang. Lut.,
que visavam inclusive uma filiação formal ao luteranismo norte-americano. No entanto,
nem os sínodos norte-americanos nem a Caixa de Deus, que retomou seu auxílio em
1925, revelaram-se como financistas seguros, ou suficientemente fortes. Como, porém,
a Caixa de Deus rejeitava categoricamente uma filiação à Federação Eclesiástica,
ocorreu a idéia de requerer uma filiação à Igreja territorial luterana da Baviera, que,
porém, por fim não quis assumir sozinha o ônus daí resultante e indeferiu o
requerimento em 1931. Por via um tanto complicadas, em janeiro de 1933 efetuar-se-ia,
não obstante, a filiação do Sín. Evang. Lut. à Federação Eclesiástica, mas não sem que
surgissem violentas tensões entre a Federação Eclesiástica Evangélica Alemã e a
Federação Martinho Lutero, tensões internas no seio do Sín. Evang.Lut. e tensões entre
a Federação Martinho Lutero e o Sín. Evang. Lut. Contudo, isso representou uma virada
histórico-eclesiástica; pois, a partir daí, aconteceria uma aproximação lenta aos “sínodos
unidos”, até então quase heretizadas. E com isso se fortaleceria neles, a longo prazo, o
elemento luterano.
O mais importante que é preciso relatar sobre o Sínodo Brasil Central consiste quase no
fato de que ele continuou existindo, porque depois da visitação de Braunschweig em
1908, algumas de suas comunidades eram consideradas perdidas para o germanismo e a
Igreja alemã por causa do crescente avanço da língua portuguesa, não merecendo,
portanto, qualquer auxílio. Em conseqüência disso, eram reiteradas as discussões sobre
a questão da língua. A coesão interna do Sínodo era frouxa. A questão de uma possível
filiação à Federação Eclesiástica Evangélica Alemã não foi solucionada.
p. 191-192
Depois que, durante a Primeira Guerra, se havia desenvolvido “a armar da mentira
como arma de guerra”, era, no mínimo, psicologicamente explicável que a ruptura das
relações diplomáticas entre o Brasil e o Reich, em 14/04/1917, desencadeasse excessos
do povaréu contra o patrimônio alemão ou teuto-brasileiro, especialmente em Porto
Alegre, mas também em São Paulo e no Rio de Janeiro.
(...)
Na verdade, depois da declaração de guerra, em 25 de outubro de 1917, ocorreram
violações contra o patrimônio eclesiástico, somente em Rio Claro/SP e Petrópolis/RJ,
no início de novembro de 1917, quando uma multidão enfurecida destruiu todo o
mobiliário da escola paroquial dirigida pelo P. Fischer. Em 06/11/1917, o P. Paul
Sudhaus foi esbofeteado por três funcionários públicos seus conhecidos numa livraria
em Vila Tereza/RS. No todo, porém, a situação das comunidades ficou melhor do que
inicialmente se esperava, observou Braunschweig em maio de 1918, depois que, em 15
de janeiro de 1918, ainda se tinha expressado de modo muito pessimista. Mesmo assim,
não faltaram dificuldades. No Distrito Federal, bem como nos Estado de SP, PR, SC e
RS, foi decretado o estado de sítio. A partir daí, começou uma censura draconiana”.
Os jornais em língua alemã, publicados no Brasil, estão proibidos, cartas e impressos
em língua alemã não são mais entregues pelos correios, mas simplesmente destruídos.
Desse modo, tornou-se impossível postar uma Bíblia, um Catecismo, muito menos
ainda um livro didático em língua alemã. [Braunschweig]
p. 193
Conseqüências ainda mais funestas teriam a proibição do alemão no trabalho das
comunidades. Quando, em 17 de novembro de 1917, tornou-se pública uma proibição
policial de prédicas alemãs, cultos alemães e do uso da língua alemã em público,
Rotermund apelou imediatamente às autoridades sob a invocação do § 72 da
Constituição (livre prática religiosa). Visto que não foram proibidos cultos protestantes
em geral, e, sim, apenas o uso de uma língua, argumentou que, no caso do alemão,
tratava-se de uma linguagem cultural, que estaria sendo usada com o mesmo direito
como o latim na Igreja Católica! Sem a língua alemã, o culto evangélico se tornaria
impossível!
Se, portanto, fosse proibida a língua alemã em nossos cultos. 200 comunidades seriam
obrigadas a fechas as suas igrejas e abandonar a religião dos pais. A religião e a
liberdade de consciência são imprescindíveis e bens tão essenciais para a
personalidade humana, que não posso imaginar que seja possível que eles sejam
menosprezados pelas autoridades deste país, onde a liberdade sempre foi respeitada e
garantida com grande sensibilidade e zelo.
Rotermund não estava interessado apenas em legalizar novamente, na medida do
possível, numa situação difícil, o uso da língua alemã, que naquela época ainda era a
única língua falada pela maioria dos membros das comunidades; para ele, estavam em
jogo princípios de fé. Isso revelam as seguintes exposições: “Ora, para a liberdade de
culto uma das condições vitais é o uso da linguagem eclesiástica; e desde a Reforma de
Lutero, que fundou a Igreja protestante cristã, esta é a língua alemã. Segundo a
constituição de nossa religião, os cantos, a liturgia, os atos cúlticos, as prédicas têm
que ser realizadas em língua alemã”.
p. 194
Poderia a distância espiritual em relação à Reforma tornar-se mais clara do que nessa
argumentação? Enquanto Lutero aboliu o latim como língua cultual e introduziu a
língua popular, o alemão foi declarado língua cultual irrenunciável na situação
brasileira, na qual ele nem conseguia mais impor-se em toda parte no cotidiano! Em vez
de apelar à liberdade de religião e consciência, teria sido preferível exigir a permissão
do uso da língua materna como um direito pessoal (na época, ainda pouco se falava de
direitos humanos). Nesse caso, o uso do alemão no culto poderia ter sido justificado no
sentido de Lutero enquanto o alemão era a língua usual nas comunidades.
p. 200
Sob o aspecto ecumênico, ainda queremos fazer uma breve referência aos festejos do
quarto centenário da Reforma no ano de 1917, para os quais estavam programadas seis
pequenas publicações. No caderno nº 1, o P. Neumann, de Brusque (Assoc. Evang. de
Comunidades), chega à conclusão de que “os povos evangélicos” teriam produzido mais
homens importantes e se teriam desenvolvido mais rapidamente no todo do que os
povos católicos, não pela superioridade de raça, e, sim, pela emancipação da
consciência cristã, inaugurada por Lutero.
Pois
onde quer que se realize trabalho humano, seja com enxada e foice na selva, seja com o
arado ou também na escrivaninha ou na barraca do general de campo, a força
motivadora sempre é a consciência (...) O impulso para o trabalho e o sentimento do
dever, que obriga à perseverança – ambos pertencem à esfera que se chama consciência.
Mas a consciência é educada de modo fundamentalmente diferente na Igreja evangélica
e na Igreja católica.
Aqui, portanto, numa variante da conhecida tese de Max Weber, declara-se como
estímulo à cultura não a piedade reformada puritana, e, sim, a piedade cunhada pela
herança de Lutero, caracterizada pela formação de uma ética da consciência e de uma
consciência de responsabilidade, e o protestantismo é justificado por seus frutos, o que
se explica, até certo ponto, seguramente pela situação da diáspora. A fraqueza dos povos
católicos é vista em sua educação para a dependência, que encontraria sua clara
expressão na proibição da leitura autônoma da Bíblia, inculcada ainda em 1864 por Pio
IX, no Sílabo – o papa havia chamado a divulgação da Bíblia uma “Peste” –, e na ética
casual, que exigiria obediência filial à Igreja, não, porém, uma sensibilização autônoma
da consciência. “Nisso reside a fraqueza dos povos católicos. Seu desenvolvimento está
bloqueado.” Em contraposição a isso, valeria a convicção protestante de que “somente o
ato do homem pensante” teria “valor ético”, que encontraria “a razão de seu agir no
amor a Deus, seu sentido na preocupação amorosa com o próximo”. Eu seu todo, as
exposições de Neumann são expressamente não-polêmicas e isentas de qualquer patos
étcnico-patriótico, como era costumeiro naquela ocasião do Reich alemão.
p. 205
Depois das experiências da Primeira Guerra Mundial, o Concílio Sinodal de 1919 já
havia tomado a decisão de atacar a formação de pastores brasileiros: a diretoria sinodal
fica encarregada de preparar, juntamente com a Sociedade Gustavo Adolfo, a fundação
de uma escola de Teologia para a formação de pastores evangélicos para o RS.” O pré-
seminário de Cachoeira, criado em 1921, deve-se à iniciativa do P. Dohms que, no
entanto, nos termos de um ginásio humanístico alemão, somente preparava para o
estudo da Teologia na Alemanha.
O desejo de formar pastores no próprio país foi acelerado pela experiência negativa da
composição enormemente heterogênea do corpo de pastores e por sua curta
permanência no ministério, na maioria dos casos motivada pelo retorno dos pastores
contratados por determinado período, por doenças, falta de adaptação e devido à
situação econômica muitas vezes desfavorável. Uma comunidade no distrito de Porto
Alegre, por exemplo, teve 11 pastores no período de 13 anos, e, no decorrer de seis
anos, 50 se transferiram, isto é, a metade de todos os pastores ativos no Sín. Riogr.! Mas
também aqui a ajuda financeira da Alemanha, novamente em crescimento depois da
Primeira Guerra Mundial, obstaculizou iniciativas próprias no país. Ao invés de ampliar
o Pré-Seminário a seminário teológico, construiu-se em Stettin-Kückenmühle um
seminário para a diáspora, cujo diretor, Lic. Krieg, iria conhecer o Brasil somente em
1927, por ocasião de uma viagem de inspeção! Certamente a questão de falta de divisas
na década de 20 desempenhou certo papel, mas, além disso, decerto também
desempenhou certo papel a idéia de que uma formação satisfatória seria possível
somente no contexto da Igreja-Mãe.
p.254-255
No Acordo sobre a filiação do Sín. Evang. Lut. de SC, PR e outros Estados do Brasil à
Fed. Ecles. Evang. Alemã [DEKB – Deutscher Evengelischer Kirchenbund], assinado
em 30 de janeiro de 1933 pela Comissão Sinodal do Sín. Evang. Lut. em Jaraguá,
determina-se, entre outros, que sua base confessional, inclusive as ordens de cunho
confessional no prontuário litúrgico, no hinário e catecismo e a intermediação de
pastores evangélico-luteranos, fica inteiramente preservada, “que assuntos concernentes
à confissão do Sínodo, de suas comunidades e dos clérigos” seriam resolvidos pela Fed.
Ecl. Evang. Alemã somente após consulta prévia à Igreja Territorial Evangélico-
Luterana da Baviera (para isso, está previsto um acordo separado) (Art. I, 1-2), que a
autonomia territorial do Sín Evang. Lut. ficaria preservada (Art. II, 1), que a língua
eclesiástica seria a alemã – o uso excepcional do português em ofícios seria
regulamentado por instruções específicas (Art. IV, 1-2). Em assuntos de pessoal, a Fed.
Ecl. Evang. Alemã recebe os direitos decisivos (V), assume a aposentadoria e as
pensões, sendo que o Fundo de Pensões do Sín, Evang. Lut. é usado para essa finalidade
(VII), enquanto a Fed. Ecles. Evang. Alemã se compromete a cobrir o déficit no
orçamento do Sìn. Evang. Lut. “na medida dos meios disponíveis” (VIII). A Fed. Ecl.
Evang. Alemã nomeará um representante permanente próprio para o Sín. Evang. Lut.
(IX).
p.259-260
Em geral, as comunidades do Sín. Br. Centr. teriam passado relativamente ilesas pela
guerra, mas o “retrocesso da consciência da raça alemã”, em decorrência do corte das
relações diplomáticas e do infeliz desfecho da guerra tornaram impossível impedir “um
aumento da brasilidade”, ou uma “crescente miscigenação”, conforme relatam diversos
pastores. Justamente em face desse processo seria necessário incrementar a idéia
sinodal, a fim de que as comunidades passassem a apoiar e enriquecer-se mais
mutuamente. No complemento “teuto-evangélico” se deveria, doravante, sublinhar o
evangélico triplamente e deveria haver o cuidado para que se cultive “uma verdadeira
fidelidade confessional evangélica”, um conhecimento orientador, que infelizmente não
conseguiu impor-se no trabalho dos sínodos no período entre as duas guerras!
Um homem como E. Bamberg, no entanto, repetiu, em setembro de 1920, velhas
afirmações ao escrever que germanismo e protestantismo estão estreitamente inter-
relacionados. Se os alemães evangélicos parassem de falar alemão, eles não passariam
para comunidades evangélicas de língua portuguesa, e, sim, para o catolicismo. Por isso,
seria inútil fazer missão externa quando, por falta de apoio, simultaneamente no Brasil
milhares de recém-nascidos submergem “na superstição romana”! Haveria necessidade
urgente de um Seminário para Formação de Professores no Brasil Central, visto que, do
contrário, por falta de professores brasileiros, todas as escolas coloniais fechariam; pois
pela lei mais recente, um professor alemão somente poderia lecionar, se tivesse um pr
brasileiro a seu lado, o que dificilmente se poderia financiar.
p. 261
Em fins de junho de 1923, iria realizar-se em Petrópolis o 4º Concílio Sinodal. O
relatório de Hoepffner tinha um tom acentuadamente sombrio. Em 1920, eles teriam se
encontrado sob a chocante impressão do infeliz desfecho da guerra, mas não haviam
pensado que, três anos depois, iriam reencontrar-se em condições bem piores! Isso se
referiu, por um lado, à situação no Reich com a ocupação do Ruhr e a guerra do Ruhr e
à inflação galopante, e, por outro, à situação do Sínodo, que o presidente caracterizou
com a frase: “Para fortalecer o que está prestes a morrer”. Em comparação com a
assembléia constituinte em 1913, Hoepffner se sentia “como numa comunidade
agonizante”. A luta da Igreja teuto-evangélica no Brasil Central seria contra a
indiferença e indolência, mais do que contra o ambiente de outra crença e língua, pela
crescente “brasilianização” (sic!) esmoreceria o interesse pelo Sínodo?” Outros
achavam que se deveria deixar de realizar os concílios sinodais, a fim de economizar as
altas custas de viagem dos pastore e dos representantes das comunidades ou pôr esse
dinheiro à disposição de obras de caridade. A essa idéia haviam aderido o P. Hartmann
e os representantes de São Paulo, que não compareceram à assembléia.
p. 275
(...) a partir de 1922, ano do centenário da independência do Brasil, com a sua “Semana
de Arte Moderna” em São Paulo, revelou-se com o “modernismo” não apenas o peso
cultural do próprio Brasil, mas acentuou-se visivelmente o “nativismo”, uma corrente
que considerava a cultura luso-brasileira como norma para o país. Todas as demais
tradições culturais deveriam ser absorvidas na cultura luso-brasileira única.
p. 276
A Igreja Católica aproveitou-se do nativismo para, após a separação de Igreja e Estado
em 1890, apresentar-se novamente como a única Igreja nacional e difamar o
protestantismo como elemento estrangeiro e estranho. Sem identificar-se com todos os
objetivos dos nativistas, a Igreja Católica oficial acentuava que havia “naturalizado a si
própria” e que, por isso, “os ‘objetivos do nacionalismo’ não” poderiam “ser
promovidos com maior sucesso por ninguém além dela mesma”. Na década de vinte,
em concorrência com a Assoc. Cristã de Moços, a Igreja Católica fundou uma
“Associação de Moços Católicos’ que, segundo o lema Pro Deo et Patria, também se
dedicava à promoção da idéia nacionalista e ao fortalecimento da autoridade do Estado.
p. 282
A nova Constituição Brasileira de 1934 continha fortes traços nativistas. Uma série de
determinações servia à nacionalização dos imigrantes e com isso atingiu também os
teuto-brasileiros. Assim, por exemplo, não era mais permitido construir colônias
homogêneas de imigrantes. Futuramente escolas coloniais poderiam ser dirigidas
somente por professores brasileiros natos. Nenhuma criança até 12 anos podia ser
instruída e examinada em outra língua que não fosse o português. Teuto-brasileiros não
poderiam mais pronunciar uma palavra sequer em alemão durante o período do serviço
militar.
A linha nacionalista-nativista já havia sido reforçada anteriormente pelas medidas
tomadas pelo executivo, especialmente pela aceleração da instalação de escolas
elementares brasileiras em áreas de imigração, depois deter sido criado no Ministério da
Educação um órgão administrativo próprio para a lusitanização das escolas nas áreas de
colonização não-lusitanas.
(...)
O desenvolvimento político dos anos trinta se caracterizou por uma crescente
radicalização. A urbanização e a industrialização aumentaram o peso político das
massas urbanas, de modo que os partidos se viram obrigados a procurar bases mais
amplas no povo e ao menos dar a impressão, mediante recursos demagógicos, de estar
executando a vontade do povo (populismo)
O primeiro partido com um programa a longo prazo foi o Partido Comunista, fundado
em 1922, cuja ala legalista visava, juntamente com a “Aliança Nacional Libertadora”
(ANL), sob a liderança do rebelde Luís Carlos Prestes, como movimento congregador, a
vitória eleitoral de uma frente popular.
p. 283
A direita organizou-se sob a liderança de Plínio Salgado na Ação Integralista Brasileira
com vestes fascistas. O movimento integralista queria substituir o pluralismo político-
partidário por um partido nacionalista autoritário e promover a unidade brasileira,
mobilizando todas as forças existentes no povo, a fim de criar, a partir dos diferentes
povos e raças do Brasil, um povo e eliminar a corrupção. As pretensões
nacionalizadoras do integralismo eram inteiramente cunhadas pelo espírito do nativismo
dos anos vinte.
Mas Vargas já tinha suas próprias organizações de base. Em 1930, ele havia
transformado os sindicatos de trabalhadores em organizações semi-estatais e em
instrumentos para a manipulação das massas. Vargas, que se propôs a fomentar
decisivamente a industrialização, teve que fazer concessões especiais aos trabalhadores
urbanos, mas esqueceu as massas rurais e, simultaneamente, dependia da burguesia.
Não obstante, procurou, de modo populista, como hábil demagogo, com a ajuda dos
setores até então ainda não explorados, minar a base de poder da casta da qual ele
mesmo procedia.
Como hábil tático, soube jogar a esquerda contra a direita, eliminando, em 1935, a ANL
e os comunistas com o apoio dos integralistas e dos partidos burgueses, apavorados com
a ameaça comunista. O golpe de novembro da ala revolucionária do Partido Comunista
havia criado um congresso submisso a Vargas, o que lhe possibilitou o estado de sítio e
outras leis, que eram quase uma “procuração”. Com uma série de intervenções, tornou
submissa a maioria das unidades da Federação e antecipou-se às eleições presidenciais
de janeiro de 1938, nas quais uma reeleição era constitucionalmente impossível, com
um golpe de Estado em 10 de novembro de 1937.
p. 284
Depois de um lastimável golpe, Vargas proibiu em 1938 os integralistas, que já tinham
aproximadamente 1,5 milhões de adeptos, e aboliu completamente a “democracia
partidária, que ameaça a unidade natural”. Como propagasse habilmente o Estado Novo
como garantia contra a infiltração comunista, Vargas tinha garantido o apoio da ampla
maioria das forças eclesiásticas. No Sín. Riogr., aprovaram-se suas medidas sob o
aspecto do anticomunismo, e sua revista para a juventude tentava enquadrar Vargas ao
lado de Hitler na frente única contra o comunismo.
Nesse contexto, pouco se considerou o que Vargas pretendia com a proibição do
integralismo fascista que, com exceção das pretensões nacionalizantes, havia
encontrado “em muitos pontos de seu programa a prazerosa aceitação dos teuto-
brasileiros”. Vargas evidentemente queria eludir um concorrente incômodo, ainda que
pelo preço de adotar muitas coisas de seu programa e inscrevê-las na própria bandeira,
especialmente a nacionalização em todas as esferas da vida, a mais rigorosa brasilidade!
Sobre a política do germanismo nazista no Brasil, Prien comenta as teses de Jürgen Hell
p.285
Para compreender o pano de fundo das medidas brasileiras quero citar as teses de Hell
sobre a política do Terceiro Reich em relação ao Brasil.
Depois que a República de Weimar havia perseguido apenas uma expansão comercial e
cultural no Brasil, a política do exterior nacional-socialista adotou do imperialismo
Guilhermino “a subjugação ideológica e o monitoramento político dos teuto-brasileiros
– como aliás de todos os cidadãos de origem alemã no exterior – para os objetivos
econômicos e anexionistas da grã-burguesia alemã na segunda tentativa de conquista da
hegemonia mundial”. Ela “adotou a utopia da Nova Alemanha, a fim de realizá-la, a
curto prazo, por meio de uma política germanista forçada. Do sistema da política do
germanismo nazista no sul do Brasil faziam parte vários elementos, que se distinguem
em aspectos essenciais da política Guilhermina, mas que em muitos pontos representam
uma continuação. A política de germanismo nazista se constituía
a) da estruturação de um partido nazista rigorosamente organizado no sul do Brasil,
que recebia suas ordens da central da organização do exterior em Berlim e que
abrangia não apenas os cidadãos do Reich, mas também os teuto-brasileiros;
b) de uma estreita cooperação com o integralismo, o fascismo brasileiro, cujo cerne
era constituído pelos teuto-brasileiros;
c) da continuação de uma expansão colonizadora sistemática no Paraná;
d) da fundação da Federação 25 de Julho, que queria congregar os teuto-brasileiros
sob uma liderança sub-reptícia dos nazistas;
e) da unificação da juventude teuto-brasileira, facilmente conquistada para os alvos
fascistas, no Círculo Juvenil Teuto-Brasileiro [Jugendring];
f) da penetração do sul do Brasil pelo malfadado espírito nazista.
Os nazistas esperavam a instalação de uma ditadura integralista no Brasil, não apenas a
prolongação do eixo Berlim-Roma-Tóquio até o Rio de Janeiro, mas também o
reconhecimento dos “direitos dos grupos étnicos” como ponto de partida para a
autonomia política dos teuto-brasileiros. Inicialmente, o Estado Novo de 1937 foi
equiparado por eles à instalação de uma ditadura fascista. Mas o Estado Novo não era
uma ditadura fascista, e, sim, uma ditadura pessoal do representante da burguesia
nacional, Getúlio Vargas.
p.336
A Revolução Constitucionalista de SP havia provocado tumultos em outras partes do
Brasil Central, de modo que o Concílio do Sín. Br. Centr. de 1932 não pode ser
realizado.
Na Conferência Pastoral e no 7º Concílio Sinodal – em junho de 1933 no Rio de
Janeiro, Hoepffner observou que o estranho fato de que no 20º ano da fundação do Sín.
Br. Centr. se realizava apenas o 7º Concílio Sinodal seria sintomático para as condições
em que se encontrava o Sínodo. A ideia sinodal continuaria fracamente enraizada nas
comunidades muito diversas e distantes. Sob o ponto de vista das estruturas das
comunidades, a abrangência do Sín. Br. Centr. certamente é a maior. Ao lado de
comunidades expressamente metropolitanas encontram-se comunidades de cidades
pequenas e coloniais, bem como áreas estritamente de pregação itinerante nos estados
de SP, MG e no Nordeste. “As comunidades portuárias têm outras características do que
as comunidades do interior, que, por sua vez, diferem muito entre si.” E as
“comunidades coloniais, que continuam à margem do grande movimento, se encontram
numa situação toda especial”. A feliz decisão de imprimir os comoventes relatórios dos
pregadores itinerantes e coloca-los à disposição de todos os membros contribuintes do
Sínodo levou Funcke a fazer a observação de que isso lhe teria dado a impressão de que,
pela primeira vez, a idéia de Igreja adquiriu, “assim se espera”, vida para muitos
membros no Brasil Central!
O atendimento de novas levas de fugitivos teuto-russos, que continuavam chegando, era
dificultada não somente pela “seita missuriana, que trabalhava com todos os meios para
conquista-los”, mas também por causa da duplicidade com o Sín. Evang. Lut. Funcke
estava se empenhando pela uniformização do atendimento dos fugitivos teuto-
evangélicos.
p.337
No culto festivo por ocasião do Domingo Sinodal, o pastor M. Begrich “pronunciou um
sermão de grande efeito, apontando para os importantes acontecimentos no povo alemão
e na Igreja-Pátria alemã”. Essa é a única referência à virada nacional-socialista no
Reich! Por outro lado, a recomendação de instituir o dia das mães está relacionada com
sua introdução oficial no Brasil em 1930. O relatório de Funcke sobre a audiência com o
presidente do Reich, Paul von Beneckendorff und von Hindenburg (1932) causou
“inegavelmente” “uma forte impressão patriótica”.
Também se falou sobre “métodos modernos” no trabalho nas comunidades e constatou-
se, entre outras, que antigamente se faziam elevadas exigências sociais aos pastores, ao
passo que agora as exigências eram mais eclesiásticas, com por exemplo: espera-se
deles que assumam o trabalho com jovens.
(...)
Mais uma vez o uso da língua vernácula estava em discussão. Enfatizou-se que não
estava no arbítrio do pastor usar alemão ou português como língua cultual; prédicas em
português deveriam ser apenas ofertas adicionais; mesmo assim, o Sín. Br. Centr. tomou
conhecimento da introdução do português como linguagem cultual em determinados
lugares a aprovou.
p. 338
O tema da Conferência Pastoral em 23 de junho de 1934 no Rio de Janeiro foi: “A
Questão da Pedagogia Evangélica”, apresentado pelo pastor J. Ebersbach (1931-34 no
Rio de Janeiro). Duas coisas chamam atenção no transcurso da Conferência Pastoral:
em primeiro lugar, o fato de que a noite de sábado ficou livre “para a participação de
alguns dos sinodais na celebração do solstício da Sociedade Ginástica Alemã” – uma
concessão a resquícios pagãos no germanismo; em segundo lugar, embora algumas
associações leigas tivessem entrado na luta contra a introdução do Ensino Religioso
católico nas escolas públicas brasileiras, prevista na nova Constituição, a Conferência
Pastoral recusou-se a tomar um posicionamento, alegando “que esse assunto
exclusivamente brasileiro não seria de seu interesse”. Visto que aqui se tratava da
tentativa da Igreja Católica de reverter parcialmente a separação oficial de Estado e
Igreja, o que significaria automaticamente uma discriminação das igrejas protestantes,
também se pode interpretar essa expressa reserva como falta de enraizamento do Sín.
Br. Centr. no contexto brasileiro! Isso certamente e deve também ao fato de que, no Sín.
Br. Centr., atuavam exclusivamente pastores enviados, como também mostra a decisão
tomada nessa mesma Conferência Pastoral, segundo a qual todos os pastores do Sìn. Br.
Centr. irão filiar-se corporativamente à Associação de Ex-Pastores e Atuais Pastores
Atuantes no Exterior.
p. 339-340
O 9º Concílio Geral Ordinário do Sín. Br. Centr., em novembro de 1937 no Rio de
Janeiro, foi o último antes da Segunda Guerra Mundial. Lembrou-se o 25º ano de
existência do Sínodo, pelo qual o bispo Heckel expressou os votos da Igr. Evang. Alemá
com as palavras: “Fidelidade ao Evangelho e fidelidade à etnia alemã – estas são as
estrelas-guia para nosso serviço”. Decidiu-se editar uma publicação comemorativa com
o relatório das comunidades, os relatórios de viagens, etc. O Sín. Br. Centr. abrangia
agora 25 mil membros em 16 paróquias (com Nova Friburgo) com 19 pastores, um
pregador e um diácono.
p. 340-341
O P. Johannes Schlupp/Nova Friburgo (desde o início de 1937 no serviço pastoral e
escolar) relata sobre a decadência e o reerguimento da mais antiga comunidade teuto-
evangélica do Brasil.
A fundação de uma fábrica de rendas, em 1911, e de uma fiação, em 1925, provocou
uma segunda onda de imigração alemã. Em 1917, foi necessário processar os
presbiterianos que queriam apropriar-se da igreja que lhes fora cedida para uso. Em
1925, fundou-se uma sociedade escolar e eclesial, que entrementes havia se separado
novamente da comunidade, até que o P. Wiese conseguiu reconciliar os grupos rivais,
de modo que a Igreja e a escola estão unificadas, contando a comunidade com 241
almas, das quais cerca de 20% freqüentam os cultos regularmente.
p. 344-345
Enquanto o conceito de organismo tem um cunho tanto idealista quanto liberal em
Schleiermacher, entre os românticos conservadores sobressaiu unilateralmente a linha
idealista da idéia do organismo. Conforme a teoria do povo original de Fichte, o povo
alemão é o único ao qual foi preservado um acesso direto ao espírito absoluto por meio
de sua língua original não-falsificada. Essa relação da essência alemã e da língua
alemã sempre foi destacada pelos românticos. Entendiam o povo como um organismo,
cuja essência nasce de profundezas místicas da “alma popular” alemã. Dessa linha de
pensamento resulta que cada povo possui um acesso próprio ao Evangelho, de acordo
com sua essência espiritual.
No entanto, o conceito Volkskirche só iria ganhar vida e tornar-se eclesiologicamente
dominante com Wichern. Em seu discurso, no Dia da Igreja de Wittenberg, em 1848, a
tônica era: “A Volkskirche como Igreja para o povo, que se preocupa de modo
abrangente com as suas necessidades e as cura, a partir daí é Igreja do povo, na qual o
povo pode encontrar abrigo e lar para a liberdade, igualdade e fraternidade crentes”.
Nesse contexto, Wichern compreendia a Igreja decisivamente a partir do 1º Artigo. “O
povo como criação divina era o coração dessa Volkskirche, e a parcela do povo ético-
religiosamente sadia tinha a missão de atrair para dentro de sua vida laboriosa também
os círculos do povo que ainda se encontravam de fora. O mandamento máximo
chamava-se amor, que passou a figurar igualitariamente ao lado da fé.” Em Wichern,
misturavam-se consciência eclesiástico-nacional e quiliasmo. A “Volkskirche
socialmente pacificada, eclesiasticamente viva” pela Missão Interna deveria integrar-se
cada vez mais no Estado, até que “a Volkskirche e o Estado popular cristão ficassem
unidos como corpo e alma, sem que alguém pudesse definir os limites exatos. Aí então
estaria realizado o reino de Deus na terra”.
Do conceito de organismo, em última análise biológico, imprestável como categoria
histórica, não era mais longo o caminho que passava pela fórmula da “predisposição dos
povos germânicos para o cristianismo” até a idéia de que o reformador Martinho Lutero
teria descoberto o acesso especificamente alemão ao Evangelho. Essa compreensão
etnicista da Reforma foi ampliada, na segunda metade do século XIX, pelo componente
do cristianismo evangélico que levou à heroização de Lutero. Isso se evidenciou
especialmente em 1868, por ocasião das celebrações em homenagem a Lutero em
Worms, e e, 1883, por ensejo do jubileu do nascimento de Lutero. Aqui se entendia
Lutero como “eterno alemão” (von Treitschke) e a Reforma como a irrupção da forma
do cristianismo adequada à natureza alemã.
DO GERMANISMO AO NACIONAL-SOCIALISMO
p. 353
No que diz respeito à data na qual iniciou uma reflexão sobre a etnicidade alemã entre
os pastores e membros das comunidades no Brasil, representam um marco a guerra de
1870/71 e a fundação do Reich.
p. 354-355
O cristianismo germânico étnico, a consciência do povo alemão de ser eleito como povo
evangélico e a ideologia pangermânica étnica entraram numa simbiose muito cedo (cf. o
problema do manifest destiny no puritanismo anglo-saxão protestante dos EUA), o que
representa uma aberração herética perigosa também sem a influência do nacional-
socialismo. Além disso, o etnicismo é considerado naturalmente como ordem da
criação.
p.355
Por sua natureza, a Primeira Guerra Mundial elevou ainda mais as ondas do pensamento
e dos sentimentos étnicos, de modo que a ela representa um marco importante no
desenvolvimento. A solidariedade com os cidadãos no Reich manifestou-se por meio de
grandes campanhas de coletas que até meados de novembro de 1914 já haviam
arrecadado 160 contos de réis (cerca de 180 mil marcos) no RS, “em favor das
necessidades dos feridos e dos familiares remanescentes em conseqüência da guerra”.
Além disso, empreenderam-se campanhas de esclarecimento da opinião pública luso-
brasileira unilateralmente partidária da França.
p.367-369
A derrota de 1918 de modo algum levou a uma reflexão geral sobre a cultura do
etnicismo alemão. Justamente os círculos pangermânicos, que tinham seu reduto no
germanismo do exterior, de modo algum estavam dispostos a mudar de idéia.
Consideravam a política modificada do Reich alemão em relação ao germanismo no
exterior como traição à causa alemã. Característica disso no Brasil é a controvérsia entre
representantes do Ministério das Relações Exteriores e o Urwaldbote, de Blumenau,
órgão dos pangermânicos de SC, que defendia a cultura do etnicismo pangermânico,
nacionalista.
Já durante o tempo do Império, o cônsul Landmann observou que o Urwaldbote, com
seu posicionamento pangermânico, lhe era mais repugnante “do que o mais vermelho
social-democrata”. Durante 30 anos, isto é, até 1928, o diretor Eugen Fouquet
considerou como sua tarefa principal despertar e cultivar sentimentos étnicos em seus
leitores.
(...)
Em 1929, o cônsul alemão Rohkohl recebeu a instrução do Ministério das Relações
Exteriores no sentido de interromper qualquer relação com sociedades, etc. que
publicam no Urwaldbote.
Sobre isso, o Urwaldbote fala, com sutilezas verbais, de um “ato terrorista sem igual”
das autoridades alemãs, que com isso “estaria querendo forçar uma mudança de
mentalidade de um jornal alemão do exterior”. Contra todos os outros propugnadores do
governo esquerdista alemão daqueles tempos, que possivelmente também poderiam
levantar críticas contra o Urwaldbote, constata-se:
Nisso, porém, nos sentimos unânimes com nosso amplo público leitor de origem alemã
daqui, que por mais de 30 anos seguiu nossa bandeira e que ainda hoje se mantém
invariavelmente fiel às antigas cores do Reich “preto-branco-vermelho”. Quanto à
conhecida mudança das opiniões sobre política, consciência alemã e etnicismo, como
são costumeiras no pós-guerra entre os governos alemães dominantes, o Urwaldbote se
nega determinantemente a deixar degradar-se a um mero órgão informativo.
(Blumenau, nov. 1928)
Esse artigo mostra o modo de pensar difundido em muitos círculos de origem alemã no
Brasil, e o quanto era perigosa a colaboração incondicional dos sínodos com todos os
círculos etnicistas! A ideologia pangermânica propagada pelo Urwaldbote iria
necessariamente predispor os leitores no mais alto grau para a propaganda nacional-
socialista!
(...)
E a Comunidade do Rio de Janeiro, do Sín. Br. Centr., tentou comprometer aqueles que
alardeavam a causa alemã com os deveres eclesiásticos:
Quem “se orgulha de sua confissão luterana e de ser membro da etnia alemã e lhe dá
algum valor” deveria “sentir-se comprometido a filiar-se à nossa comunidade. Pois ela
é a única associação na qual a confissão evangélica encontra um forte abrigo em sua
forma alemã e onde a preservação do etnicismo da língua encontra maior garantia
(Gemeindeakten Rio de Janeiro 4, 1921-1922, p. 6. Arquivo do Sín. Br. Centr.)
Uma fundamentação especialmente sóbria para a luta pela preservação da língua alemã
nas comunidades do Sín. Br. Centr. encontra-se nas atas sinodais de 1935:
Embora nossa confissão evangélica, que se baseia na justificação por graça, e
exclusivamente pela fé, não estivesse condicionada a nenhuma língua, e fosse autêntica
e verdadeira em toda parte onde alguém experimenta junto com Paulo: “Se alguém
está em Cristo é nova criatura”, existem, não obstante, em nossa Bíblia Alemã, melhor,
em nossa Bíblia de Lutero e em nossos corais alemães, valores tais que sua perda não
pode ser lamentada suficientemente. A meu ver, reside aqui o único reconhecimento
admissível de um cristianismo adequado a determinada etnia, e com isso também a
justificação da luta de nossa Igreja pela preservação não somente de nossa confissão
evangélica, e, sim, também de nossa confissão teuto-evangélica.
Aqui inclusive se define de modo teologicamente aceitável o conceito do “cristianismo
adequado a determinada etnia” [artgemäss], impregnado do espírito “teuto-cristão”.
p. 371
Fritz Bliedner, o diretor da Casa Matriz de Diaconisas da Ordem Auxiliadora de
Senhoras para o Exterior, em Wittenberg, constitui um exemplo da maneira como a
expectativa da cultura do etnicismo sempre foi sugerida aos sínodos pela Igreja pátria.
Por ocasião de sua visita ao Brasil, ele constatou, em toda parte, uma crescente ameaça
ao germanismo, “crescente desprezo da língua alemã e simultaneamente também uma
séria ameaça à Igreja evangélica”. Perigo de desgermanização!
p.375-376
A fundamentação da Volkskirche a partir do 1º Artigo pode ser a seguinte:
Um cristão evangélico não pode retrair-se de seu povo a seu próprio si mesmo. “Ele
sabe: ‘Deus criou-nos como alemães; por isso, ele quer que permaneça alemão o que é
alemão. Quem se sabe criado por Deus como alemão, te o dever perante Deus de
cuidar para que permaneça alemão o que é alemão´(...).” Porque o Sín. Riogr. queria
abranger todos os evangélicos de língua alemã, “também podia temer uma confissão
bem clara e insofismável pelo povo alemão e pela língua materna alemã (...) Esse
Sínodo não tinha outra alternativa senão o caminho para a Volkskirche. Pelo menos
quanto à idéia, ele se antecipou aqui ao desenvolvimento da Igreja pátria engessada nas
Igrejas territoriais.”
Sua autocompreensão como Volkskirche também levou o Sín. Riogr. a priorizar a idéia
de povo, isto é, o cultivo do etnicismo acima das questões político-nacionais, portanto,
acima do enquadramento “na estrutura da pátria brasileira”. Nessa decisão, o Sínodo
sentiu-se confirmado pelo nacional-socialismo:
A vitória de Adolf Hitler mostrou claramente que o fato de se ser cidadão de
determinado país não determina a que povo se pertence, que “o Estado é, sem dúvida,
a premissa para a formação de uma cultura humana superior, não, porém, a causa.
Esta reside exclusivamente na existência de uma raça capacitada para a cultura” (...)
Primeiro, a revolução na Alemanha nos despertou e nos devolveu toda a nossa
consciência étnica, a saber: que para o futuro nossa força para o cumprimento das
tarefas culturais, dadas a nosso povo por Deus, residirá no fato de pertencermos ao
glorioso povo alemão. (Rudolf Müller, representante da Comunidade de Cachoeira do
Sul/RS)
O “novo conhecimento” que Hitler e seu nacional-socialismo presenteou ao mundo, de
que a humanidade “não consiste de seres humanos, e, sim, de diferentes povos, de
diferentes raças”, que, portanto, a “comunicação entre humanidade e ser humano”
sempre é a consangüinidade do povo com a alma, seu caráter próprio, sua especial
índole e sua disposição inata, também determinou a concepção de missão do Sín.
Riogr., que pode ser descrita com o termo Missão ao Povo. “A missão, portanto, se
dirige à alma do povo. O objetivo da missão é a criação de uma única nação cristã
alemã” (P. E. Eyssel. Relatório Sinodal, 1934, p. 61ss.)
p. 382-384
[DOHMS – presidiu o Sín. Riogr. no início do séc XX]
A fatal mistura do pensamento étnico e nacional-socialista se evidencia de maneira
especialmente clara em H. Dohms:
Dohms caracteriza a virada no Reich alemão com o termo “totalidade”. Seu juízo sobre
a doutrina do Estado total é inteiramente positivo.
Em oposição à divisão do poder do Estado em uma pluralidade de poderes, de partidos
e representações de interesses, que levou a um sufocamento do Estado por egoísmo de
classes e de partidos, planeja-se agora restabelecer o Estado como novo Estado
autoritário e concentrar o poder estatal decisivo em um só lugar. Somente assim parece
possível uma superação das classes e partidos e da política do egoísmo, e somente
assim parece possível garantir a unidade do povo e seu direito de vida para dentro e
para fora.
Dohms vê a concepção de Estado de Hitler “fundamentada em termos de história do
pensamento humano e da teoria do direito” nas obras de Carl Schmitt.
Agora Dohms entende soberania dos povos de modo novo como domínio dos líderes
natos, que são autorizados pelo séquito e nos quais “pulsa forte e arrebatadoramente” o
povo “em sua vontade original e instinto original, como sangue da vida”. Dohms saúda
a superação do “individualismo” político “dos indivíduos como último princípio da
formação política”, a dissolução dos antigos partidos e a “equiparação” de todas as
alianças para o erguimento do domínio político total do Estado.
Dohms acredita poder sentir a afinidade espiritual com o nacional-socialismo, pois a sua
concepção “da relação entre Estado, etnicismo e cultura do povo correspondem
exatamente àquilo que líderes proeminentes do germanismo no exterior sempre
defenderam.
Pois o nacional-socialismo justamente não teria partido de “um ideal político, por
exemplo, o Estado total ou do princípio do Führer na política”, e, sim, da “pretensão da
totalidade da idéia étnica”, que aparentemente justifica esses princípios políticos! Pois a
idéia étnica é antiga, conforme Dohms, e remonta em suas raízes mais puras a “homens
como Fichte, Jahn, Schleiermacher e Stein”, mas relativamente nova seria a “pretensão
de totalitariedade com que ela” se apresenta. Em contraposição ao século XIX, agora já
não está mais no centro a idéia da comunhão cultural, e, sim, a idéia da “comunhão
sangüínea, do solo e do destino” É evidente que aqui se entende povo de modo mais
elementar do que quando se o entende como comunhão cultural”. Dohms aprova os
excessos de Hitler em Mein Kampf contra a “formação” e “as pessoas cultas”, porque
teria faltado enraizamento do povo.
Como se se tratasse de um dogma, Dohms postula: “A humanidade existe em povos.
Em determinado povo de um só sangue, solo e destino cada indivíduo tem sua vida.”
A partir da pretensão de totalidade do povo, Dohms saúda o enquadramento de todos no
mesmo front, dos agricultores e dos trabalhadores, dos doutos e indoutos, dos artistas e
dos artesãos, a criação da organização do trabalho para jovens [Reichsabeitsdienst] e a
reorganização da escola, mas também as conseqüências eclesiológicas:
A reunião das Igrejas territoriais evangélicas em uma Igr. Evang. Alemã que, na
superação de todo particularismo próprio das Igrejas territoriais e de toda
excentricidade das particularidades confessionais, torna-se Volkskirche mais do que até
agora, tudo isso e muitas coisas mais a partir da idéia de povo, que tudo permeia e que
novamente recoloca tudo que estava separado em seu contexto original.
Dohms estã tão convencido de que o Estado nacional-socialista corresponde a seu
etnicismo, que, apesar da distância geográfica dos acontecimentos no Reich, constata
apodicticamente: o Estado “não é total no sentido do Estado ‘onipotente’ de tempos
passados, que se arrogava a criar povo e cultura ele mesmo e a interferir na vida
autônoma do povo”. Como alemão no exterior, ele sente a si e todo o trabalho do Sín.
Riogr. confirmado, porque agora a idéia de povo estava colocada acima da idéia de
Estado, de modo que limites políticos não mais podiam destruir a unidade do etnicismo.
Pouco antes, Dohms havia constatado com satisfação que no Reich “agora o
pensamento de povo é tudo na política e também predomina sobre o Estado”, e com isso
estaria “superado o profundo conflito interior, no qual a identificação de Estado e povo”
teria lançado “inúmeros alemães no exterior no Reich alemão anterior a 1914”.
Dohms é exemplo de como a qualificação teológica do etnicismo tornava as pessoas
cegas para o conhecimento de Hitler e seu movimento. Conforme a exposição de
Scholder, pela teologia política do nacionalismo etnicista,
trocaram-se diretamente essência e acidente do movimento. Sua essência, o desprezo
assassino pelo indivíduo, somente aparecia como acidente infeliz, como excrescência de
uma causa em si boa, enquanto aquilo que, na verdade, eram acidentes, a saber,
ordem, espírito comunitário, disposição para o sacrifício, solidariedade, parecia ser
sua essência (...) Com efeito esta foi a conseqüência mais funesta da teologia política: o
fato de que, com sua pretensão de estar interpretando os sinais dos tempos, na verdade
tornava as pessoas cegas para os verdadeiros sinais dos tempos.
Se uma cabeça crítica como a de Dohms foi capaz de manifestar tais convicções, não
admira que, em fins de 1933, dois terços dos pastores do Sín. Riog, se sentiram como
nacional-socialistas e, portanto, também como “teuto-cristãos”, e que também
confessavam isso publicamente. Isso era perigoso para a Igreja em face do expresso
nativismo dos anos 30 e haveria de ter conseqüências fatais na Segunda Guerra
Mundial.
Nos cadernos da Evangelische Jugend, cujo redator era o P. Knäpper, que fazia parte da
liderança da juventude do Sín. Riogr., encontram-se na rubrica Aus dem Lande der
Väter [“Da Terra dos Pais”] títulos como: Hindenburg; Durch Kampf zum neuen
Deutschland; Dr. Göbbels; Der Bauer im neuen Deutschland; Hitlerjugend sammelt
fürs Winterhilfswerk; Volksgemeinschaft: Adolf Hitler mit Arbeitern; Seeteufel auf
neuer Weltfahrt; Eine Begegnung mit dem Führer, etc.
Knäller também tentou introduzir na Evangelische Jugend a expressão Jungvolk (“povo
jovem”). Na Evangelische Jugend de novembro de 1936 se informa: “Saudação. A
diretoria da juventude determinou em sua reunião de 19 de setembro, que nossa
saudação é o Heil, com a mão erguida”. Aliás, os “camisas-verdes” da “Ação
Integralista” nativista-fascista também usavam a mesma saudação.
Depois que o Círculo Juvenil do Morro do Espelho foi criado, falou-se em “fundação da
juventude teuto-brasileira compenetrada”. Na Evangelische Jugend se fala então da
“luta por Cristo e nossa espécie”, de “construir nossa Volkskirche”, e são usados slogans
triádicos como “Fidelidade ao sangue, fidelidade à fé, fidelidade à pátria” ou “Por Deus,
pelo povo e pela pátria”.
Enquanto na história do pensamento alemão se havia imposto, em fins do século XIX, a
tese de que um Estado pode ser construído duradouramente somente sobre a base
“natural” de um grupo étnico, e que, portanto, povo, nação e pátria deveriam ser
idênticos, não restou outra alternativa ao germanismo do exterior do que diferenciar
esses termos. Assim também a Juventude Evangélica prometia fidelidade ao sangue e ao
povo alemão, mas simultaneamente à pátria brasileira. Portanto, ainda se entende pátria
como espaço com o qual se está ligado por nascimento e origem, e pouco se distingue
de pátria como a terra onde a gente se sente em casa, como mostra o uso alternado dos
termos.
p. 395
No Concílio Sinodal de 1937, evidenciou-se, na discussão do trabalho com a juventude,
o quanto parcelas consideráveis da classe pastoral estavam contagiadas pelo pensamento
nacional-socialista-étnico, ou ao menos se comportavam de modo meramente defensivo
em relação à organização nacional-socialista Círculo Juvenil Teuto-Brasileiro:
O pastor E. Wiese/Nova Friburgo “entrou em um acordo com o Führer regional do
Círculo Juvenil Teuto-Brasileiro, segundo o qual as programações deveriam ser
organizadas de tal maneira que os dias de culto infantil ficassem livres”. No ES, o
problema ainda não existia, porque ainda não havia sedes do Círculo Juvenil Teuto-
Brasileiro. O quanto era fraca a consciência do problema entre os sinodais revela a
formulação na ata: “Em outras comunidades, como Juiz de Fora (V. Schwaner), Belo
Horizonte (A. Busch) acontece uma cooperação orgânica, visto que os pastores são
Führer locais do Círculo Juvenil.
Para isso, é preciso saber que em 1937, por exemplo, o Círculo Juvenil havia declarado
o estado confessional de uma pessoa como algo de pouca importância. “Onde pessoas
quisessem encontrar-se numa comunhão étnica, a confissão individual deveria silenciar.
Seria indiferente se alguém é protestante, católico, adventista ou adepto de Ludendorff.
p. 415
O que me parece típico no discurso do presidente é a mistura acrítica de entusiasmo
étnico-nacionalista com o chamado ao despertamento escatológico, que impossibilitou
uma avaliação sóbria do Kirchenkampf e encobriu o caráter próprio da proclamação
cristã. Quando se eleva o Führer a guardião do cristianismo positivo, como o fez
Hoepffner, e ainda se dá a esse conceito uma interpretação pretensamente adequada,
então a Igreja Confessante somente podia estar sendo dirigida por falsos profetas e por
hereges.
p. 426
Em documentos públicos do PTNSA [NSDAP], o RS era listado como território
alemão. Por meio de subvenções do Consulado Alemão, o Partido se teria apoderado
das escolas, para propagar a ideologia nazista através delas. Depois disso, teria
começado a se infiltrar nas sociedades.
p. 427
Por fim, o Partido teria aumentado a sua influência sobre os pastores da Igreja Evang.
Alemã, que, como se afirmava, liam trechos da obra de Hitler, Mein Kampf, nos cultos.
Coelho de Souza considera especialmente perigosos o presidente Dohms e os pastores
Knäpper, Hoppe, Engelbrecht, Pommer e Braun. Assim, o Partido teria impregnado a
escola, a sociedade e a Igreja.
O partido teria arrecadado consideráveis somas, não apenas com as mensalidades, mas
também com as arrecadações das sociedades filiadas, os resultados das coletas do
Winterhilfswerk [“Obra Assistencial para o Inverno”], dos sopões e coletas especiais.
Sob o manto da organização partidária do diretor regional Walter Hornig, também a
Polícia Secreta (Gestapo) se teria estabelecido confeccionando listas negras sobre o
posicionamento ideológico de cidadãos alemães e teuto-brasileiros e conclamando ao
boicote contra alemães que não assumiam uma atitude positiva em relação ao Terceiro
Reich. Inclusive os tribunais do Partido teriam atuado em solo brasileiro. Por fim,
existiam no RS a Deutsche Arbeitsfront [“Frente Alemã de Trabalho”], o Bund
deutscher Frauen im Ausland [“Liga de Mulheres Alemãs no Exterior”] e o Deutsch-
Brasilianischer Jugendring [DBJ = “Círculo Juvenil Teuto-Brasileiro”], sob a
orientação do Dr. Neubert, uma filial da Juventude Hitlerista (fundada em 1935). Em
Porto Alegre as organizações nacional-socialistas realizavam reuniões e desfiles.
p.428
É preciso constatar que a atuação das organizações nacional-socialistas no exterior
acirrou enormemente o problema da política etnicista “numa época de correntes
expressamente nacionalista e de tendências centralistas” e ainda acentuou as tendências
nacionalizantes.
Os sínodos reagem à nova situação jurídica com medidas de transição (...). Mas o
problema era bem mais profundo. Para os sínodos, que inclusive em sua denominação
se entendiam como Igreja alemã, isso significou um conflito evidente.
(...) O programa de nacionalização de acentuado cunho ideológico colidia com o
pensamento etnicista exacerbado até a ideologia germanística especialmente entre os
pastores dos “teuto-cristãos”, de tal forma que muitas vezes dificilmente poderia ser
distinguida da ideologia nacional-socialista, de modo que a autocompreensão teuto-
protestante foi lançada numa profunda crise por essas proibições, uma crise de
identidade que atingiu a Igreja evangélica alemã em seu cerne. Os sínodos foram, por
assim dizer, obrigados pelo Estado a se integrarem no país, a se nacionalizarem.
Inicialmente as conseqüências eram perplexidade e insegurança. Em 1938, os cultos
ainda podiam ser realizados em toda parte em língua alemã. Mas também nos distritos
sulinos da Igr. Lut. Alemã no Br. os últimos pastores foram afastados do serviço
escolar.
p. 430
Na Conferência de Presidentes em Buenos Aires, em outubro de 1938, a situação nos
diferentes Estados brasileiros se apresentava do seguinte modo: em SC e PR, a vida
social secular, fortemente desenvolvida, estava destruída; no ES ela não existia, no RS,
ela continua existindo em geral, no RJ, em SP, MG e no norte, as sociedades tinham que
nacionalizar-se ou transformar-se em sociedades puramente alemãs. Em SC, no PR e no
ES, as escolas teuto-brasileiras das comunidades e sociedades foram fechadas ou
transformadas em escolas brasileiras, no ES inclusive algumas foram desapropriadas,
enquanto no RS a prescrição era que todo o ensino fosse ministrado em português,
permitindo-se 6 horas/aula semanais em alemão. Em SP, no RJ, em MG, etc. apenas a
inspeção escolar se tornara mais rigorosa.
p. 431
O estado de exceção, no qual se encontrava o Brasil, tornava inútil todo recurso à
Constituição, de modo que, por exemplo, em novembro de 1938, os pastores de
Joinville tiveram que conformar-se com a estrita proibição do comandante do batalhão
de usar a língua alemã em qualquer área de trabalho, do mesmo modo como o P. Soboll
em Curitiba, porque isso – esse era o argumento – seria prejudicial à campanha em
favor da brasilidade de nossa pátria.
O programa de nacionalização e assimilação do governo federal previa quatro etapas:
nacionalização 1º – das sociedades; 2º – das escolas; 3º – das Igrejas; 4º – das famílias.
As etapas 1 e 2 estavam concluídas antes do início da guerra.
p. 435
Em geral, Schlünzen constatou certo afrouxamento na execução da nacionalização
desde o início da Segunda Guerra Mundial, o que pode ter sido motivado pelo princípio
da neutralidade, estabelecido no início da época da guerra. Possivelmente também pela
onda de remigração que as medidas nacionalizantes haviam provocado já antes da
guerra. No entanto, muitas iniciativas promissoras estavam novamente soterradas desde
1938; por exemplo, os retiros da Ordem Auxiliadora de Senhoras e das diretorias das
comunidades, que não mais puderam ser levados a efeito por causa da restrição da
liberdade de reunião, igualmente os Concílios Sinodais; culto infantil e estudos bíblicos
tiveram que ser cancelados em muitas comunidades, porque os ouvintes não
conseguiam acompanhar a língua nacional. As escolas paroquiais haviam sido
estatizadas, o trabalho da Igreja com a juventude estava paralisado. Muitos boletins
informativos das comunidades não puderam mais ser publicados.
p.458-459
A situação piorou ainda mais depois da declaração de guerra do Brasil em 22 de agosto
de 1942.
Em toda parte ocorreram excessos por parte a população instigada, com a destruição
do patrimônio alemão e numerosas prisões de alemães, mas também brasileiros
simpatizantes da Alemanha.
Prisões e internações ocorreram principalmente por causa da suspeita de intrigas
políticas ou do uso da língua alemã, mas em parte também por inveja da concorrência
ou chicanas pessoais. Muitos presos foram libertados logo, depois que as denúncias
recebidas se revelaram como falsas ou insignificantes. Estima-se que mais de 100 mil
cidadãos alemães no Brasil estejam presos 2 a 3 mil. Mulheres – salvo algumas
exceções – não foram molestadas.
Desde fins de outubro de 1942 não ocorreram mais manifestações com excessos e
ataques contra pessoas e propriedade de alemães, prisões em massa, revistas
domésticas em ampla escala e coisas semelhantes (...) Também o número de demissões
em massa nas empresas brasileiras, como aconteceram em agosto e setembro de 1942,
em parte pela impressão da campanha difamatória da imprensa, em parte pela pressão
de fornecedores americanos ou de embaixadas ou consulados americanos ou ingleses,
retrocedeu novamente em outubro. (Correspondência enviada pelo Pastor Thomas, de
Lisboa)
Quanto à situação diferenciada nos diversos Estados da Federação, no Rio de Janeiro o
uso privado da língua alemã não estava proibido; a proteção dos alemães contra
manifestações populares era mais eficiente em SP, enquanto do ES para o norte
aconteceram os piores desregramentos. “Durante as manifestações populares pela
declaração de guerra do Brasil, em agosto de 1942, teriam sido (...) destruídas escolas e
igrejas alemãs em Santa Maria e Pelotas (RS).
Após a declaração de guerra, a onda de aprisionamentos também atingiu imediatamente
os pastores alemães, sendo que em maior número no RS. Alguns, como Begrich/SP ou
Frank/Curitiba, ficaram presos apenas temporariamente; muitos, porém, por períodos
mais longos. Segundo uma listagem do Corpo da Guarda espanhola, em 1942 estavam
presos 34 clérigos: 23 do RS na Colônia Penal Agrícola Daltro Filho/RS, 3 de SC na
Ilha das Flores, um em Belo Horizonte e 7 em Vitória.
Em conseqüência disso, no ES estavam em seus postos apenas 3 pastores (Bielefeld em
Campinho, Hahn em Santa Leopoldina e Fuchshuber em Santa Maria)! Ao que parece,
em SC estavam presos, além disso, o presidente Schlünzen e 2 pastores da Igr. Lut.
Alemã no Br.
Até imediatamente antes da declaração de guerra, o Rio de Janeiro foi a última
comunidade na qual ainda era possível realizar cultos em alemão. A partir de então
também este foi proibido. No Sín. Br. Centr. haviam sido fechadas já anteriormente as
comunidades de Nova Friburgo e Teófilo Otoni. Nas demais o trabalho continuou sendo
feito no vernáculo.
p.462
Como justificativa para as meiddas contra os alemães serviram as atividades anteriores
do PTNSA [NSDAP]. O Diário da Noite de São Paulo, por exemplo, publicou, em 26
de maio de 1939, no artigo intitulado A Ação do Partido Nazista na Campanha da
Desnacionalização, a foto de uma celebração no 1º de Maio no clube Esportivo
“Germania”, em São Paulo, que mostra a cerimônia de arriamento de bandeiras e
estandartes nazistas, saudadas pelos presentes com o braço estendido. “Não se vê sequer
uma bandeira brasileira.” Sob a Jus Sanguinis, diz o artigo, o PTNSA [NSDAP] no
Brasil concentra toda a sua atenção em todas as organizações dos teuto-brasileiros, a
começar pela escola, passando pelas sociedades, até as Igrejas. A Liga Nacional-
socialista de Professores [Nationalsozialistischer Lehrerbund – NSLB] manobra, a
partir da Alemanha, por meio dos professores alemães, o trabalho educacional nas
escolas alemãs do Brasil. O Círculo Juvenil Teuto-Brasileiro [Deutsch-brasilianischer
Jugendring – DBJ] nada mais seria do que a Juventude Hitlerista na Alemanha. Os
membros saúdam-se com Heil Hitler e com a saudação fascista. No artigo de 27/05/39:
Eles Pregavam a Separação dos Estados Sulinos do Brasil é reproduzido o depoimento
policial de Werner Hoffmann, um brasileiro nato, que trabalhou no consulado alemão de
Curitiba até 1939. Hoffmann apontou para os esforços do PTNSA [NSDAP] no sentido
de vincular as sociedades teuto-brasileiras ao Partido, e para os esforços por parte da
Liga Nacional-socialista de Professores [NSLB] no sentido de educar os alunos no
Brasil no espírito nacional-socialista. Quanto à afirmação sensacional do título se
menciona apenas que um membro do Partido, Sr. Plugge, “teria pregado a separação dos
estados sulinos do Brasil com as minorias raciais”, sendo que Hoffmann teria se
manifestado contrário a essa idéia perante seus camaradas. Isso é pouco para afirmação
generalizante do título.