Klauss
Klauss
"Diante da dor, regozije-se ou rebele-se! Jamais fique no meio do caminho." (Comissário Almirante
Brunsk III, Segundo Pelotão da Cia Bravattus)
A forte chuva começara a cair naquele fim de tarde, enquanto crianças brincavam de bola na ala
leste da praça do mercado, que agora esvaziava. Pessoas iam e vinham com baldes, cestos ou
carrinhos, fugindo das pesadas gotas. Tudo parecia normal, corriqueiro até, se não fosse pela carta
que chegara às minhas mãos...
(...)
Eu nasci e fui moldado para essa posição, para cumprir meu papel diante do Império. Desde meus
jovens anos era treinado e direcionado em absolutamente tudo, desde como lidar com talheres,
passando por teorias e estudos, até aprender a fazer outro homem sangrar ou chorar. E naquilo me
dediquei, sempre com muito esmero e atenção. Evoluí como se esperava, repleto de medalhas e
recomendações, e me consolidei como um Comissário respeitado, ou nalguns auspícios, temido.
Nada para além daquilo que me era definido, afinal.
No entanto, algo dentro de mim se agitava há tempos. E aquilo que já fora certeza, tornou-se
dúvida. E o que parecia certo, tornou-se errado. Depois de muito choro silencioso, a dor me
consumiu por inteiro, e ali, diante da tempestade de dor e chamas que eu mesmo ordenei, um último
som e um último questionamento: "Para onde vou, afinal? Se mereço pior que a morte..." E tudo
tornou-se trevas.
"Eu olhei em seus olhos! Sorri e bebi entre eles. Como tive coragem de executar tal ordem? Como
faltou-me coragem para negá-la?"
(...)
Latejava minha cabeça enquanto meus pés, trôpegos, me levavam a uma direção qualquer. Gritos,
fumaça e cheiro de carne queimada dominavam todos os meus sentidos. Minha visão era turva,
enquanto meu sangue ainda quente corria por meus ombros. Eu só caminhava, com dores e tontura,
sem entender o que acontecia e onde eu estava. O tiro não me deu o descanso, como ansiava. Só me
trouxe mais dor e confusão.
Sem muito pensar eu só tinha uma certeza: que queria ir embora. Me destituí de tudo o que tinha, de
tudo o que era, e segui enquanto meus pés e desmaios repetidos me permitiam. Até acordar, dias
depois, com as ondas do mar em meu rosto... e o sons do velho bêbado que me achou e levou para o
barco.
(...)
"Capitão Klauss Xahyr, é o seu nome! Noutras horas também o chamam de Urso Negro, ou mesmo
Guaxinim. (rs) Mas essa é uma outra estória. (soluço)
O fato é, que poooucos conhecem essas rotas e trilhas como ele! E poucos já comandaram ou
perderam homens por estes mesmos caminhos! Não devia ter dito isso... (sussurrado para si)
Mas podem ter certeza de uma coisa, ao menos de uma única coisa: Quase ninguém _vivo (falado
em tom baixo) aceitaria navegar nessas águas!!"_