O Moedeiro "Enfermo Dos Peitos" (Uma Doença Profissional No Porto em Meados Do Século XV)
O Moedeiro "Enfermo Dos Peitos" (Uma Doença Profissional No Porto em Meados Do Século XV)
1. Introdução
Sabemos ainda pouco sobre os mesteres em Portugal na Idade Média. Aos títulos clássicos de
Langhans, António Cruz e Maria José Pimenta Ferro1, a investigação recente acrescentou estudos
sobre as mulheres e o trabalho, as regateiras, os armeiros, as gentes do mar ou os mineiros2. Mas
não dispomos de nenhuma obra de fôlego correspondente às de P. Bonassie ou de Carmen Battle
sobre Barcelona, à de Ricardo Córdoba sobre os mesteres de Sevilha, à de Geremek sobre os
assalariados parisienses, à de Maria Jesus Temino López-Muniz sobre os artesãos de Burgos ou ao
volume canadiano sobre artes mecânicas na Idade Média3, nem de estudos monográficos como os
de Gual Camarena, Paulino Iradiel, José Maria Monsalvo Antón4 ou Maria Isabel Falcón, para ficar-
mos apenas com alguns historiadores do país vizinho5. É por isso com fundada expectativa que se
aguarda a investigação de Arnaldo Sousa Melo sobre os mesteirais do Porto, que produziu já um
resultado preliminar.6
0 presente texto pretende dar um pequeno contributo para o conhecimento da actividade dos
moedeiros.
Também esta Casa suscitou pouco interesse dos historiadores, mesmo do fortíssimo grupo
que, principalmente nos anos 30 a 60 do século passado, tanto se dedicou ao estudo da cidade do
Porto7. Mas é ainda assim a essa geração que se deve muito do pouco que se sabe sobre o assunto.8
No Portugal medievo funcionaram, tanto quanto sabemos, três Casas da Moeda: uma em Iisboa,
outra, bastante efémera, em Évora9 e outra ainda no Porto10. É a última que agora me interessa.
Á cidade tinha uma tradição muito antiga de cunhagem de moeda associada a soberania políti-
ca11. Seria no entanto absurdo pretender que se quis recuperar essa tradição quando se criou a Casa
da Moeda. Ignoramos, de momento, a data precisa dessa criação e, por isso, não podemos atribuir-lhe
uma paternidade segura. Ainda assim aceitamos, com Damião Peres, que a ámdação da Casa da
Moeda do Porto se deve a D. Fernando.12 Aquele historiador lembra que não se conhecem documentos
sobre ela anteriores a este reinado, mas que se multiplicam durante ele. E avança mesmo com um
marco cronológico a quo provável, o ano de 136913, e um outro seguro: uma carta régia de 3 de Março
de 1370 outorga aos moedeiros do Porto os mesmos privilégios dos de Iisboa14.
A Casa da Moeda do Porto terá cunhado numerário de todos os tipos e metais. Temos notícia de
uma emissão portuense de barbudas1^, no tempo de D. Fernando16, que foram retiradas da circula-
ção por não respeitarem o teor metálico prescrito17. Não creio que deste incidente devam ser tiradas
quaisquer conclusões positivas ou negativas18.
3. O Regimento de 1391
5
O próprio conceito de indústria merecia uma revisão. Veja-se, sobre isto, A H. de Oliveira Marques - Portugal na Crise dos Séculos
XIV e XV, Iisboa, Editorial Presença, 1986, p. 115; bem como, do mesmo autor, as entradas "Indústria - Na Idade Média", Dicioná
rio de História de Portugal, dir. de Joel Serrão, II, p. 525-528, e "Mesteirais", III, p. 4446.
6
Arnaldo Sousa Melo, Isabel Madureira Franco e Luís Carlos Amaral -Artesãos e actividades artesanais no Porto nos finais da
Idade Média, através dos livros de Vereações e do Cofre dos Bens do Concelho, in Qualificações, Memórias e Identidades do
Trabalho, coord. de Inês Amorim, Iisboa, Instituto do Emprego e Formação Profissional, 2002, p. 191-228.
7
Destaco, entre outros, nomes como Magalhães Basto, Pedro Vitorino, António Cruz e Eugênio Andrea da Cunha Freitas.
8
Damião Peres - "O Século XV: uma República Urbana", in História da Cidade do Porto, dir. de Damião Peres e António Cruz,
Porto, livraria Civilização, 1963, vol. 2, p. 128 e ss.; Artur de Magalhães Basto - "Fundiçom da moeda dei Rey que se fez e faz na dita
Cidade", in "Vereaçoens". Anos de 1390-1395, Porto, Câmara Municipal - Gabinete de História da Cidade, [s.d.], p. 310-314. Este
historiador dedicou ao tema três artigos da sua série "Falam velhos manuscritos...", no jornal "O Primeiro de Janeiro": "O Almazem,
a Casa da Moeda e os Paços Reais", em 21.8.1942; "Houve no Largo dos Lóios, no Porto, alguma Casa da Moeda?", em 8.10.1954;
"A Casa da Moeda dos Lóios", em 8.7.1955. Seguirei também o texto de Maria de Fátima Pereira Machado Os Moedeiros do Porto
no século XVI (apresentado no Congresso de História Medieval de Santa Maria da Feira, em 8 e 9 de Junho de 2002), que a autora
gentilmente me facultou em versão dactilografada.
9
Terá laborado entre 1385 e 1398.
10
V. Maria José Pimenta Ferro -Estudos de História Monetária Portuguesa (1383-1438), Iisboa, 1974, p. 101-112.
11
Há emissões de moeda, em Portucale, dos reis visigodos Leovigildo (585-86), Recaredo (589), Iiúva (601), Sisebuto (612) e
Suintila (621).
12
A ser assim, é mais um registo a contabilizar na coluna do "crédito" deste rei que, sobretudo em resultado da crónica de Fernão
Lopes, quase só tem visto acumularem-se os "débitos".
13
"...Ano em que já se cunhavam as variadas moedas com que o monarca inaugurou uma fase nova na tipologia nacional, de que
alguns espécimes ostentam a marca portuense, e em que também, por virtude da primeira guerra fernandina com Castela, o erário
público entrou em francas dificuldades." (História da Cidade do Porto, n, p. 130).
14
Torre do Tombo, Chancelaria de D. Fernando, L1, fól. 54. Sobre o tema, veja-se Damião Peres - História dos Moedeiros de Lisboa
como classe privilegiada, Iisboa, Academia Portuguesa de História, 1964-65 (2 vol.).
15
Um tipo de real de prata fernandino.
16
Mais precisamente em 1378.
17
História da Cidade do Porto, cit, vol. 2, p. 128-129.
18
Damião Peres vê-o como um acidente de percurso numa folha de serviços distinta; creio antes que é uma falha ou uma 'habilida
de' normal e previsível neste sector de actividade. Uma emissão incorrecta nem transforma a Casa da Moeda do Porto numa
associação de falsários nem, por ser só uma, a converte numa oficina de excelência.
515 O moedeiro "enfermo dos peitos"
Moeda do Porto20. Passo a uma rápida análise do documento, começando pela orgânica desta insti-
tuição.21
No topo havia um tesoureiro da Moeda22 e dois vedores da fundição23. A parte nobre do trabalho
cabia a ourives, que eram abridores de cunhos e ensaiadores24; os fornos eram continuamente
alimentados por obreiros, e estes vigiados por capatazes25. Havia também o escrivão da moeda, um
oficial muito importante, como veremos. E havia um corpo paralelo, devotado à segurança férrea
da Casa, constituído pelo Alcaide da Moeda e pelos guardas. O regimento inclui uma referência
genérica a "mesteiraaes e serviçaes" da Moeda (trabalhadores da construção e do transporte e
abastecimento, que tivessem de prestar serviços regulares à Moeda).
Do diploma ressaltam algumas preocupações. A primeira é a de tornar as instalações estanques,
de modo a evitar roubos ou desvios de metais preciosos ou semi-preciosos, de moeda lavrada ou, o
que seria muito mais grave, de moldes e cunhos. O alcaide e os seus guardas teriam de exercer
uma vigilância implacável, sobretudo nas entradas e saídas dos moedeiros. Talvez para que a eficá-
cia do seu trabalho fosse maior, o alcaide da moeda vivia no andar superior da Casa26. Cada capataz
devia permanecer constantemente junto ao respectivo forno, alimentado no mínimo por três obrei-
ros27, guardando a respectiva chave como se de um cofre se tratasse28.
Toda a matéria prima, instrumentos de trabalho, cunhos, moldes vários e moeda lavrada eram
controlados em permanência, sob ameaça de prisão nas próprias instalações da Casa (lembremos,
a propósito, que os moedeiros tinham foro especial29). Os metais distribuídos todas as manhãs
teriam de ser transformados nesse mesmo dia. O momento mais alto, o da entrega da moeda
acabada de cunhar, revestia-se de grande solenidade: o capataz do forno, na presença controladora
de um dos seus obreiros, depositava as moedas nas mãos do tesoureiro, sob o escrutínio atento do
escrivão da moeda.
São definidos alguns requisitos técnicos para se produzir uma moeda "bem branda e bem obrada
e bem redonda", e estabelecidos os critérios para o exame dos ensaiadores ("pêra se ver se [a moeda]
he da ley") e para a eliminação, por fusão, da má moeda; como lembra S. Isidoro, numa moeda há que
atender a três coisas: ao metal, à cunhagem e ao peso; "se alguma delas falta, não é uma moeda".
Pelo menos no que toca aos obreiros dos fornos, vigorava o princípio de pagar a cada um confor-
me o seu trabalho: "E aquelle que mais lavrar dem lhe mais sallayro e o que menos lavrar dem lhe
mais pequeno."
Esta orgânica foi-se aperfeiçoando com o tempo e as crescentes exigências da actividade. Em data
que desconheço surgiu um porteiro, certamente responsável por centralizar os contactos com o exte-
rior; em 30 de Julho de 1462, D. Afonso V nomeou para este cargo João Dias, morador na cidade, em
substituição de Vasco Pires, que "já não estava em disposição para servir o cargo". O novo porteiro
receberia 720 reais por ano (o que é pouco mais do que simbólico) "e mais uma cassa em que viva
19
Numa estadia de meados de Setembro até ao fim do ano, durante a qual nasceria o futuro rei D. Duarte.
20
Torre do Tombo, Chancelaria de D. João I, L 2, fól. 51, publicado por Damião Peres no capítulo citado da História da Cidade do
Porto, 2, p. 131-133, Nota 43. A transcrição tem algumas incorrecções.
21
Veja-se Robert Fossier - Le Travail au Moyen Age, p. 231.
22
Ao tempo, Domingos Eanes da Maia.
23
Pedro Martins e Fernão Domingues. Este último, tendo sido eleito juiz do Porto na reunião camarária de 3 de Julho de 1390,
tentou fugir ao cargo, argumentando com o facto de ser clérigo de ordens menores, Vedor da fundiçom da moeda dei Rey que se
fez e faz na dita cidade", de não saber "direitos" e de estar ocupado em demasiados negócios; mas falaram mais alto os argumentos
da vereação ("...se jurar nom quisesse que lhe mandariom çarar as portas da casa onde morava"). Sobre este episódio, veja-se A de
Magalhães Basto - "Vereaçoens"..., p. 13-14.
24
Lembre-se que Pêro Vaz de Caminha foi mestre da Balança da Casa da Moeda no Porto (possivelmente entre 1479 e 1496), tal
como o havia sido seu pai.
25
Que me lembram os comitres que vigiavam a chusma dos remadores das galés.
26
Isso está documentado para Diogo Leite, em 1555 (v. Maria de Fátima Pereira Machado - Os Moedeiros do Porto, cit), mas é
possível que acontecesse desde a fundação da Moeda.
27
Não sabemos quantos fornos havia ao todo.
28
Suponho que seria a chave do compartimento.
29
Se fossem detidos, sê-lo-iam na própria Casa da Moeda, num vulgar tronco; provavelmente tratava-se apenas de confinar os
suspeitos ou acusados às instalações da Moeda. Como refere Fátima Machado, os oficiais concelhios indignavam-se pelo facto de
os prevaricadores andarem soltos por toda a Casa da Moeda e chegarem mesmo a sair à rua.
Luís Miguel Duarte 516
dentro na dieta Moeda segundo sempre ouveram os outros porteiros que ante foram™. Além dos alcaides,
também os porteiros da moeda tinham portanto tradição de habitarem no local de trabalho.
A actividade do alcaide incluía o contencioso; não surpreende por isso que em 16 de Novembro
de 1471, Tomé Martins31 tenha sido nomeado pelo rei escrivão dos feitos que se tratam ante o alcaide
da moeda da cidade e reguengos, sucedendo a Fernão Rebelo, vedor da Casa da Infanta, que renun-
ciara ao lugar32. Mas há mais dados preciosos sobre estes cargos: a nomeação de Álvaro do Leite,
cavaleiro da Casa do Rei, para a alcaidaria da moeda do Porto, inclui uma tença anual de 5.000 reais
com esse oficio0'0. Mais revelador foi o que se passou com os que provavelmente o antecederam no
lugar. Uma carta de se asi he, ou seja, de denúncia, de 26 de Janeiro de 1473, diz-nos que João Dias,
alcaide da moeda do Porto, praticara inúmeras irregularídades no seu ofício, a saber: "na dieta
moeda he custume, quando o dicto alcaide arma alguum fornaceiro ou crunhador, d'aver de cada
huum setecentos reaes, e que elle levava dous mill reaes"; também obrigava os moedeiros a paga-
rem-lhe uma pensão (semelhante à dos tabeliães), violando as ordenações do reino; mais "os pren-
dia sem delles ter nenhuas querellas nem denunciaçõees, somente pollos arrançoar34 e lhes levar a
dieta penssam". O estatuto de moedeiro converteu-se, durante o século XV, numa promoção social
vivamente ambicionada pelos extensos privilégios que facultava; cedo a Coroa terá de indicar um
número dos moedeiros (isto é, um quadro máximo), chegando-se no Porto e em Lisboa aos 104; de
cada vez que havia uma vaga, esta era praticamente leiloada. Este alcaide recebia luvas e instituiu
de sua lavra (e para o seu bolso) um imposto profissional! classe. Confrontado com tais acusações,
D. Afonso V expulsou-o do ofício e nomeou para o lugar João de Oliveira, escudeiro da sua Casa.35
Chamo a atenção para dois aspectos: apesar das enormes diferenças sociais, salariais e laborais
entre os ourives do topo, por um lado, e os operários dos fornos e os guardas, por outro, todos eles
eram moedeiros, gozavam dos respectivos privilégios, tinham foro próprio, e gostavam de se apre-
sentar à cidade como uma elite. A cidade protestava energicamente contra os excessivos privilégios
da classe, que por sua vez os generalizava à família: com esse expediente, mais de mil pessoas36
furtar-se-iam aos encargos concelhios37. Há um documento importante para o conhecimento deste
assunto: uma carta régia de 13 de Março de 1475 confirma aos moedeiros do Porto o seu foro
especial38, porque num capítulo das Cortes de Évora de 1473 o mesmo Afonso V havia revogado
esse privilégio. Perante as queixas dos moedeiros, o monarca reconsiderou,uporque o seu privilegio
nam era somente privilegio mas contrauto, convém a saber, elles eram obrigados a nos servir e nós
a lhes manteer o dicto privilegio", porque ganhavam 12 e 13 reais por dia, enquanto em outros
ofícios receberiam facilmente 40 ou 50 reais.39
Em segundo lugar, está por analisar a importância económica, financeira, política e simbólica do
facto de a cidade do Porto ter tido uma Casa da Moeda em actividade desde o reinado de D. Fernando.40
Sublinho por fim que quer a instituição quer o edifício estão actualmente a ser objecto de inves-
tigação sistemática, já graças às campanhas arqueológica e de reabilitação arquitectónica de que
30
Torre do Tombo, Chanc. Afonso V, L 1, fól. 51v.
31
Morador na cidade do Porto.
32 Provavelmente estamos perante uma vulgar compra de ofício (Torre do Tombo, Chanc. Afonso V, L 21, fól. 29v).
33
A carta régia data de 26 de Julho de 1476, mas o pagamento seria efectivo a contar de 1 de Janeiro desse ano (Torre do Tombo,
Chanc. Afonso V, L 6, fól. 124).
34
Ou seja, levar resgates.
35
Torre do Tombo, Chanc. Afonso V, L 33, fól. 29v. Deste documento não podemos deduzir com certeza que a substituição tenha
tido lugar; podia acontecer que estas acusações não fossem provadas, ou que o acusado subornasse o indigitado substituto e
continuasse no cargo.
36
Haverá aqui sem dúvida algum exagero próprio da argumentação e da negociação políticas.
37
Além disso, os moedeiros estavam isentos de pagar fintas, talhas, portagens e jugada, de dar aposentadoria, de prestar serviço
militar, tinham foro privativo, podiam eximir-se ao cumprimento de posturas concelhias e receber, do alcaide da moeda, mancebos
e mancebas que os servissem por soldada. Por isso - e não pelo salário propriamente dito - o ofício era apetecido e avidamente
disputado.
38
Isto é, a prerrogativa de serem julgados perante o alcaide da moeda da cidade e, sendo caso disso, detidos na própria Moeda,
como já vimos.
39
O rei tomou esta decisão "com alguuns do nosso Conselho e leterados" (Torre do Tombo, Chanc. Afonso V, L 30, fól. 112v).
40
E que estaria em laboração, com várias interrupções (sobretudo no século XVII), até ao século XIX (A Magalhães Basto -O.c,
p. 312-314).
517 O moedeiro "enfermo dos peitos"
beneficiaram as instalações da Casa do Infante41, já graças a um projecto científico que une várias
cidades europeias que foram sede de fabrico de moeda e do qual resultará proximamente uma
publicação de grande fôlego.42
O documento que serve de base a este trabalho é uma carta régia de D. Afonso V, confirmando
um alvará do responsável pela Casa da Moeda do Porto. Segundo este alvará, redigido na cidade
em 8 de Abril de 1446, o alcaide da moeda43, João de Aragão44, dá testemunho de um problema de
saúde de um dos seus subordinados: o ferreiro João de Refojos45, morador na margem sul do
Douro, em Vila Nova, queixou-se-lhe de que sofria fortes dores de ciática e de asma; estas dores
atormentavam-no especialmente quando trabalhava nos fornos, porque "o fumo do cobre e a gran-
de quentura do fogo lhe entrava per os narizes e per a boca e lhe ia aa cabeça". Se a identificação
dos males como ciática46 e asma47 nos pode despertar algum cepticismo, bem como o percurso dos
maléficos fumos do nariz para a cabeça, parece por outro lado óbvio que os vapores exalados pela
fusão do cobre e as temperaturas infernais não deviam dar saúde a ninguém.
João de Refojos recorreu aos físicos, que o teriam prevenido de que, se continuasse a trabalhar
nos fornos da moeda, a "sua vida seria abreviada". O ferreiro, desejoso antes de a prolongar, come-
çou por garantir alguém que o substituísse no posto de trabalho; e depois pediu ao alcaide da
moeda que o deixasse passar à aposentação.
João de Aragão seguiu a rotina: solicitou a um médico judeu, mestre Meir, que por essa altura
estava no Porto, que examinasse o moedeiro doente. Depois de devidamente ajuramentado sobre
a Tora, o mestre corroborou os primeiros diagnósticos dos seus colegas: o infeliz padecia mesmo
da dor da ciática e da dor da asma e, "segundo regra de física" corria perigo de vida se não abando-
nasse os fornos, "pello grande fogo e pello fumo de cobre que se lhe metia pellos narizes e pella
boca, e que estando lavrando se podia afogar [...] pela enfermidade dos peitos". Mais, e pior: como
o paciente era, ao que consta, enfezado ("de pequena compreissam"), o médico judeu sentenciava:
nem moedeiro nem ferreiro; João de Refojos que "buscasse sua vida por outra parte".
Perante este atestado médico, o alcaide da moeda reuniu com os demais responsáveis da Casa48 e,
41
Sede do Arquivo Histórico Municipal do Porto.
42
Tudo isto tem por responsável científico o Dr. Manuel Luís Real. Veja-se Rui Tavares - Do almazém régio à alfândega nova:
evolução de um tipo de arquitectura portuária, in A Alfândega do Porto e o Despacho Aduaneiro. Catálogo da Exposição organizada
pelo Arquivo Histórico Municipal do Porto, Porto, Casa do Infante, 1990, p. 39-65, com importantes contributos documentais e
gráficos. De Manuel Luís Real, A Casa da Moeda do Porto e a tradicional "Casa do Infante", in Moedas Portuguesas cunhadas no
Porto, na colecção do Gabinete de Numismática, Porto, Casa Tait, 1989, p. 5-13, e Inéditos de Arqueologia Medieval Portuense,
"Arqueologia", Porto, 10 (Dez. 1984), p. 3940; LA. Lopes, J. Argiiello Menéndez, P. Dordio e Ricardo Teixeira - Excavaciones
arqueológicas en Ia Casa de Ia Moneda de Oporto (siglos XIV-XVI), in Arqueologia da Idade Média da Península Ibérica. Actas do 3S
Congresso de Arqueologia Peninsular, Porto, ADECAP, 2000, vol. 7, p. 57-70; P Dordio, R. Teixeira e IA Lopes - La Maison d'Henri
le Navigateur. Les Maisons médiévales de Ia Douane et de Ia Monnaie, un centre de Ia couronne portugaise dans Ia ville de Porto, in
Exchange and Trade. Papers ofthe Medieval Brugge 1997 Conference, ed. G. de Boe e E Verhaeghe, Zellik, I AP. Rapporten 3,1997.
43
Note-se que, em relação ao regimento de 1391, o alcaide da moeda parece ter adquirido um maior protagonismo, talvez em
detrimento do tesoureiro.
44
Escudeiro da Casa do Infante D. Pedro; vassalo do rei; vedor das obras da muralha do Porto em 1443; almotacé em Abril de 1456;
juiz ordinário em 1460-61. Ele é um dos que integram a reduzida elite que governa o Porto por meados de Quatrocentos (Armindo
de Sousa - Conflitos entre o Bispo e a Câmara do Porto nos meados do Século XV, "Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto",
1983, p. 18).
45
A indicação profissional é significativa; como nota Maria de Fátima Machado, "ao que parece não existiam moedeiros em
exclusividade; todos eles exerciam em paralelo outros ofícios, o que o alcaide da moeda e o colégio dos moedeiros justificam pelo
baixo teor dos seus salários" (O.c).
46
Esta é já conhecida desde a Antiguidade. "Asciasis ou ciática - explica S. Isidoro - chama-se assim pela parte do corpo que afecta:
os ossos das vértebras, cuja parte mais alta é limitada pelo começo dos ilíacos, aos quais os Gregos chamam ischía. Produz-se de
cada vez que a fleuma desce aos ossos largos e se origina aí uma acumulação" {Etimologias, ed. bilingue, Madrid, Biblioteca de
Autores Cristianos, 1982,1, p. 492493).
47
De novo com Isidoro de Sevilha: "A asma recebe o seu nome da dificuldade respiratória. Os Gregos chamam-lhe dyspnoia, ou
seja, sufoco" (Ibidem). Os anotadores da edição acrescentam: "A asthma de que aqui fala Isidoro traduz provavelmente a palavra
suspirium, que parece referir-se a uma variedade da doença que inclui a asma brônquica e cardíaca nas quais a expiração é, por
vezes, mais difícil do que a inspiração." (Nota 38, p. 492).
48
O tesoureiro Leonel de Leça, o mestre da balança Diogo Afonso, o mestre e escrivão do tesoureiro Álvaro Fernandes.
Luís Miguel Duarte 518
constatando que o serviço do rei estava a ser prejudicado, pois enquanto estivesse no activo o ferreiro
tinha mesmo de trabalhar49, o que manifestamente ele não estava em condições de fazer, concedeu-
lhe a aposentação com todas as "honras" e "liberdades" incluídas nos privilégios da sua classe.
João de Aragão passou este alvará em nome do rei de Portugal e dirigiu-o, em primeiro lugar,
aos contadores do reino; o documento é redigido pelo escrivão da alcaidaria da moeda50, e tem data
de 8 de Abril de 1446, como já se disse. Só três anos e oito meses depois, a 22 de Dezembro de 1449,
o moedeiro obteve confirmação régia do alvará; D. Afonso V, que acabara de assumir a plenitude
das suas funções, garantiu-lhe a aposentação com todo o respeito e mordomias habituais de que
usufruíam os moedeiros que se reformavam "por bem da hidade e serviços ou aleijõoes".
Não tenho explicação para este intervalo de tempo; pelo seu teor, o alvará parecia suficiente para
garantir a 'alforria' do ferreiro. Talvez mais tarde este sentisse necessidade do suplemento de segu-
rança que uma carta régia, em pergaminho, proporcionava em relação ao alvará local' em papel.
Acredito que ele tenha largado os fornos logo em Abril de 1446, mas não posso passar de conjectu-
ras. E acrescentar uma ou outra pergunta: por aquele tempo, a Casa da Moeda do Porto trabalhava
essencialmente com cobre, ou acontecia apenas que este ferreiro tinha a desdita de "lavrar" nos
fornos daquele metal? Passando à doença, percebe-se a relação da asma com as temperaturas
muito elevadas, os fumos e os vapores; mas quanto à dor de ciática, que "regra de física" terá levado
mestre Meir a acreditar que ela também derivava do fumo que "entrava pelos narizes" de João de
Refojos e lhe "afogava os peitos"?51
Como conclusão provisória, deixaria esta: ainda na primeira metade do século XV, a Casa da
Moeda do Porto tinha já um procedimento rotineiro que permitia aos respectivos trabalhadores
darem baixa por incapacidade física.
Apêndice Documental
"Dom Afomso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber que a nos foy mostrado huum alvará
de Joham d'Aragam alcaide que foy da nossa moeda da cidade do Porto do quall o theor tall he:
A quantos este alvará virem Joham d'Aragam escudeiro vassalo d'El Rei e alcaide da sua moeda
da cidade do Porto vos faço saber que perante mym pareceo Joham de Rafoyos ferreiro morador
em Vila Nova d'a par de Guaya e me fez recontamento como era adoorado de door de ciatiga e
d'asma e que per razam da dieta door se sentia muyto mall e principalmente que era delia muito
afetado quando lavrava na dieta moeda porquanto o fumo do cobre e a grande quentura do fogo lhe
entrava per os narizes e per a boca e lhe ia aa cabeça per a quall coussa recebia grande daapno e
acrecentamento de sua door contanto que os físicos lhe deziam que se muito conthinuasse o dicto
oficio sua vida seria abreviada, pedindo me o dicto Joham de Refoyos que por escusar o cajom de
sua morte lhe ouvesse algum remédio com derreito e o apousentasse com sua honrra porquanto
elle sempre fora prestes para servir o dicto senhor em o dicto oficio mayormente que elle dera
49
Os moedeiros, como os mineiros do ouro da Adiça, por exemplo, se tinham um apreciável conjunto de privilégios e regalias,
estavam por outro lado sujeitos a um contrato para toda a vida; só podiam largar o ofício se o rei os aposentasse; Maria de Fátima
Machado afirma que os moedeiros usam "frequentemente a palavra contrato para designar e justificar os privilégios que recebe
ram em troca de um trabalho quase gratuito na Casa da Moeda." Veja-se, supra, o que afirmei acerca da reposição dos respectivos
privilégios em 1475.
50
João Moreno.
51
A crer em Luis Garcia Ballester, "...de facto, quando consultamos a documentação medieval, que nos permite conhecer como era o
acto médico quotidiano com as pessoas correntes do povo, tudo ficou reduzido à inspecção das urinas." (La búsqueda de Ia salud.
Sanadoresy enfermos en Ia Espana medieval, Barcelona, Ediciones Península, 2001, p. 133).
519 O moedeiro "enfermo dos peitos"
Joham Martinz que servisse em seu logo o dicto senhor em o dicto oficio que era morador em a
dieta cidade e perteencente pêra ello. E eu sobredicto alcaide ante que sobre sua razam determi-
nasse fiz vir perante mym Meestre Mayr judeu físico estante ora em a dieta cidade ao quall dey
juramento em sua ley que bem e verdadeiramente visse o dicto Joham de Rafoyos do que lhe
parecesse acerca da door sua per elle alegada que sem outra mallicia e engano a dessesse e o desse
por sua mãao asiinado. E o dicto Meestre Mayr per o dicto juramento assy o prometeo fazer. O
quall Joham de Rafoyos foy visto pello dicto Meestre Mayr e dado testemunho de verdade asiinado
por elle que elle vira o dicto Joham de Rafoyos e que achara que era doente da door da ciatiga e de
door d'asma e que segundo regra de física ao dicto Joham de Rafoyos vinha por bem das dietas
doores grande perjuizo e perigo de morte lavrando em a dieta moeda pello grande fogo e pello
fumo de cobre que se lhe metia pellos narizes e pella boca e que em estando lavrando que se podia
afogar pela enfermidade dos peitos e porquanto era de pequena conpreissom e ainda lhe defendia
que em seu oficio de ferreiro nom husasse nem em o dicto oficio de moedeiro e buscasse sua vida
por outra parte que se lhe podia recrecer morte segundo todas estas coussas mais compridamente
som comtheudas e declaradas em seu petitorio. E eu Joham d'Aragam por sentir que [he] serviço
de Deus escusar o dicto perigo e porque outrosy o dicto Joham de Rafoyos o costrangem que logo
sirva o dicto senhor em o dicto oficio e porque o dicto senhor nom he bem servido per o dicto
Joham de Rafoyos per razam da dieta door com acordo de Liunell de Leça thesoureiro e de
Dieg'Afomso meestre da ballança e de Álvaro Ferrnandez meestre e escripvam do thesoureiro
apoussentey e ey por apoussentado o dicto Joham de Rafoyos com todas suas honrras e liberdades
contheudas em seu privillegio. Porem requeiro da parte do dicto senhor Rey aos contadores
corregedores \fól. 7v] justiças dos Regnos de Portugall e do Algarve e a outros quaeesquer a que
esto perteence que lhe guardem e façam guardar bem e compridamente o dicto privilegio assy e
pella guissa que em elle he contheudo e per o dicto senhor Rey he mandado. E em testemunho
desto lhe foy fecto este alvará asiinado por mym e pellos sobredictos. Fecto em a dieta cidade. VIII
dias do mes d'Abrill. Joham Moreno escripvam do dicto oficio o fez. Era do nascimento de nosso
senhor Jhesus Cristo de mill IIIP KVL
Pedindo nos por mercee o dicto Joham de Refoyos que lhe confirmássemos o dicto alvará. E
visto per nos o seu requerimento e querendo lhe fazer graça e mercee teemos por bem e o confir-
mamos. E porem mandamos a vos sobredictos contadores e corregedores juizes e justiças e a
outros quaeesquer a que esto perteencer e esta nosa carta for mostrada que lha conpraaes e guardees
e façaaes bem conprir e guardar todallas honrras e privilégios liberdades franquezas que se guar-
dam aos nossos moedeiros que por bem da hidade e serviços ou aleijõoes som apoussentados. E
lhe nom vaades nem consentaaes hir contra ellas em maneira algua ca nossa mercee e vontade he
seerem conpridas e guardadas como dicto he huuns e outros. Al nom façades. Dada em a nossa
cidade d'Evora. XXII dias de Dezembro. Lopo Fernandez a fez. Ano de nosso senhor Jesus Cristo
demiUIIIPRIX."