COMO CONHECER O CÉREBRO Artigo 5

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COMO CONHECER O CÉREBRO DOS DISLÉXICOS

Vicente Martins
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A dislexia é tema de novela da Globo. O papel de disléxica em


"Duas Caras" cabe à atriz Bárbara Borges, que vive Clarissa, uma jo-
vem que tem o sonho de ser juíza, mas sempre enfrentou dificuldades
leitoras. Com o apoio da mãe, ela passará no vestibular para o curso de
direito. Assim como Clarissa, os disléxicos são pessoas normais que,
surpreendentemente, no período escolar, apresentam dificuldades em
leitura e, em geral, problemas, também, com a ortografia e a organiza-
ção da escrita. Como ajudar pais, especialmente mães, de disléxicos? O
presente artigo mostra como os pais, docentes e psicopedagogos, co-
nhecendo o cérebro dos disléxicos, poderão ajudá-los a ler e compreen-
der o texto lido.
A leitura, como sabemos, seja para disléxicos ou não, é uma ha-
bilidade complexa. Não nascemos leitores ou escritores. O módulo fo-
nológico é o único, no genoma humano, que não se desenvolve por ins-
tinto. Realmente, precisamos aprender a ler, escrever e a grafar corre-
tamente as palavras, mesmo porque as três habilidades lingüísticas são
cultural e historicamente construídas pelo homo sapiens.
A leitura só deixa de ser complexa quando a automatizamos.
Como somos diferentes, temos maneiras diferentes de reconhecer as pa-
lavras escritas e, assim, temos diferenças fundamentais no processo de
aquisição de leitura durante a alfabetização. Esse automatismo leitor e-
xige domínios na fonologia da língua materna, especialmente a consci-
ência fonológica, isto é, a consciência de que o acesso ao léxico (pala-
vra ou leitura) exige conhecimentos formais, sistemáticos, escolares,
gramaticais e metalingüísticos do princípio alfabético do nosso sistema
de escrita, que se caracteriza pela correspondência entre letras e fone-
mas (vogais, semivogais e consoantes). A experiência de uma alfabeti-
zação exitosa é importante para nossa educação leitora no mundo povo-
ado de letras, literatura, poesia, imagens, ícones, símbolos, metáforas e
diversidade de mídias e textos.
A compreensão do valor da leitura em nossas vidas, especial-
mente, na sociedade do conhecimento, é base para desmistificarmos o
conceito inquietante da dislexia e do cérebro dos disléxicos. A dislexia
não é doença, mas compromete o acesso ao mundo da leitura. A disle-
xia parece bloquear o acesso de crianças especiais à sociedade letrada.
Deixa-os, então, lentas, dispersas, agressivas e em atraso escolar. Os
docentes, pais e psicopedagogos que lidam com disléxicos devem se-
guir, então, alguns princípios ou passos para atuação eficiente com a-
queles que apresentam dificuldades cognitivas na área de leitura, escrita
e ortografia. Vamos descrever cada um deles a seguir.
O primeiro princípio ou passo é o de se começar pela descrição e
explicação da dislexia. Uma criança com deficiência mental, por exem-
plo, não pode ser apontada como disléxica, porque a etiologia de sua di-
ficuldade é orgânica, portanto, de natureza clínica e não exclusivamente
cognitiva ou escolar. Claro, é verdade que um adulto, depois de um aci-
dente vascular cerebral, poderá vir apresentar dislexia. Nesse caso, tra-
ta-se, realmente, de uma dislexia adquirida, de natureza neurolingüística
e que só com o apoio médico é que podemos intervir, de forma pluri-
disciplinar e, adequadamente, nesses casos.
Assim, tanto para a dislexia desenvolvimental (também chamada
verdadeira porque uma criança já pode herdar tal dificuldade dos pais)
como para a dislexia adquirida (surge após um AVC ou traumatismo),
importante é salientar que os docentes, pais e psicopedagogos, especi-
almente estes últimos, conheçam melhor os fundamentos psicolingüísti-
cos da linguagem escrita, compreendendo, assim, o processo aquisição
da habilidade leitora e os processos psicológicos envolvidos na habili-
dade. Realmente, sem o conhecimento da arquitetura funcional, do que
ocorre com o cérebro dos disléxicos, durante o processamento leitor,
toda intervenção corre risco de ser inócua ou contraproducente.
Os processos leitores que ocorrem nos cérebros dos leitores, pro-
ficientes ou disléxicos, podem ser descritos através de quatro módulos
cognitivos da leitura: (1) módulo perceptivo, como o nome sugere, refe-
re-se à percepção, especialmente a visual, importante fator de dificulda-
de leitora; (2) módulo léxico, nesse caso, refere-se, por exemplo, ao tra-
çado das letras e a memorização dos demais grafemas da língua (por
exemplo, os sinais diacríticos como til, hífen etc.); (3) módulo sintático,
este, tem a ver com a organização da estruturação da frase, a criança a-
presenta dificuldade de compreender como as palavras se relacionam na
estrutura das frases (4) módulo semântico, este, diz respeito, pois, ao
significado que traz as palavras nos seus morfemas (prefixos sufixos
etc.)

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Não é uma tarefa fácil conhecer o cérebro dos disléxicos. Por is-
so, um segundo passo é o aprofundamento dos fundamentos psicolin-
güísticos da lectoescrita. A abordagem psicolingüística (associando a
estrutura lingüística dos textos aos estados mentais do disléxico) é um
caminho precioso para o entendimento da dislexia, uma vez que apre-
senta as conexões existentes entre questões pertinentes ao conhecimen-
to e uso de uma língua, tais como a do processo de aquisição de lingua-
gem e a do processamento lingüístico, e os processos psicológicos que
se supõe estarem a elas relacionados. Aqui, particularmente é bom sali-
entar que as dificuldades lectoescritoras são específicas e bastante indi-
vidualizadas, isto é, os disléxicos são incomuns, diferentes, atípicos e
individualizados com relação aos demais colegas de sala de aula bem
como aos sintomas manifestados durante a aquisição, desenvolvimento
e processamento da linguagem escrita.
Nessas alturas, todos que atuam com os especiais devem pensar
o que pode estar ocorrendo com os disléxicos em sala de aula. Os mé-
todos de alfabetização em leitura levam em conta as diferenças indivi-
duais? Os métodos pedagógicos, com raras exceções, se propõem a ser
eficientes em salas de crianças ditas normais, mas se tornam ineficien-
tes em crianças especiais. Por isso, cabe aos docentes, em particular, e
aos pais, por imperativo de acompanhamento de seus filhos, entender
melhor sobre os métodos de estudos adotados nas instituições de ensi-
no. Os métodos de alfabetização em leitura são determinantes para uma
ação eficaz ou ineficaz no atendimento educacional especial aos dislé-
xicos, disgráficos e disortográficos. A dislexia é uma dificuldade espe-
cífica em leitura, e como tal, nada mais criterioso e necessário do que o
entendimento claro do processo da leitura ou do entendimento da leitura
em processo.
Não menos importantes do o entendimento dos métodos de leitu-
ra, adotados nas escolas, devem ser objeto de preocupação dos educa-
dores, pais e psicopedagogos, as questões conceituais, procedimentais e
atitudinais sobre a dislexia, disgrafia e disortografia. O que pensam as
escolas sobre as crianças disléxicas? O que sabem seus professores e
gestores educacionais sobre dislexia? Mais do que simples rótulos das
dificuldades de aprendizagem da linguagem escrita, a dislexia é uma
síndrome ou dificuldade revestida de conceitos lingüísticos, psicolin-
güísticos, psicológicos, neurológicos e neurolingüísticos fundamentais
para os que vão atuar com crianças com necessidades educacionais es-
peciais. Reforça-se, ainda, essa necessidade de compreender, realmente,

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o aspecto pluridisciplinar da dislexia, posto que muitas vezes, é imperi-
osa a interlocução com outros profissionais que cuidam das crianças,
como neuropediatras, pediatras, psicólogos escolares e os próprios pais
das crianças.
Na maioria dos casos de dislexia, disgrafia e disortografia, a a-
bordagem mais eficaz no atendimento aos educandos é a psicopedagó-
gica (ou psicolingüística, para os lingüistas clínicos) em que o profis-
sional que irá lidar com as dificuldades das crianças aplicará à sua prá-
tica educacional aportes teórico-práticos da psicopedagogia clínica ou
institucional aliados à pedagogia e à psicologia cognitiva e à psicologia
da educação. São os psicolingüistas que se voltam para a explicação da
dislexia e suas dificuldades correlatas (disgrafia, dislexias). Hipóteses
como déficits de memória e do princípio alfabético (fonológico) são
apontados, pelos psicolingüistas, como as principais causas da dislexia.
O terceiro passo para os que querem entender mais sobre dislexia
é dar especial atenção à avaliação das dificuldades lectoescritoras. A
avaliação deve ser trabalhada como ato ou processo de coletar dados a
fim de se melhor entender os pontos fortes e fracos do aprendizado da
leitura, escrita e ortografia dos disléxicos, disgráficos e disortográficos.
Enfim, atenção dos psicopedagogos deve dirigir-se à avaliação das difi-
culdades em aquisição da linguagem escrita. Nesse sentido, um cami-
nho seguro para a avaliação da dislexia, disgrafia e disortografia é pela
via do reconhecimento da palavra. O reconhecimento da palavra come-
ça pela identificação visual da palavra escrita. Depois do reconhecimen-
to da palavra escrita, deve ser feita avaliação da compreensão leitora,
especialmente no tocante à inferência textual, de modo que levando a
efeito tais procedimentos, ficarão mais explícitas as duas etapas funda-
mentais da leitura e de suas dificuldades: decodificação e compreensão
leitoras.
O quarto e último passo para o desenvolvimento de estratégias de
intervenção nos educandos com necessidades educacionais especiais em
leitura, disgrafia e disortografia é o de observar qual dos módulos (per-
ceptivo, léxico etc.) está apresentando déficit no processamento da in-
formação durante a leitura. Portanto, é entendermos como o cérebro dos
disléxicos funciona durante o ato leitor. Neste quarto passo, é impres-
cindível um recorte das dificuldades leitoras. A dislexia não é uma difi-
culdade generalizada de leitura, ou seja, não envolve todos os módulos
do processo leitor.

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Descoberto o módulo que traz carência leitora, através de testes
simples como ditado de palavras familiares e não-familiares, leitura em
voz alta, questões sobre compreensão literal ou inferência textual, será
mais fácil para os psicopedagogos, por exemplo, atuar para compensar
ou sanar, definitivamente, as dificuldades leitoras que envolvem, por
exemplo, aspectos fonológicos da decodificação leitora e da codificação
escritora: o princípio alfabético da língua materna, isto é, a correspon-
dência letra-fonema ou a correspondência fonema-letra.
Se o que está afetado refere-se ao campo da compreensão, os
psicopedagogos poderão propor atividades com conhecimentos prévios
para explorar a memória de longo prazo dos disléxicos que se baseia no
conhecimento da língua, do assunto e do mundo (cosmovisão). Quando
estamos diante de crianças disléxicas com as dificuldades relacionadas
com a compreensão estamos, decerto, diante de casos de leitores com
hiperlexia, parafasia, paralexia ou, se estão, também, superpostas difi-
culdades em escrita, ao certo, estaremos diante de escritores também
hiperlexia, parafasia, paragrafia, termos clínicos, mas uma vez explica-
dos, iluminarão os psicopedagogos que atuam com disléxicos e disgrá-
ficos. A paralexia é dificuldade de leitura provocada pela troca de síla-
bas ou palavras que passam a formar combinações sem sentido. A para-
fasia é distúrbio da linguagem que se caracteriza pela substituição de
certas palavras por outras ou por vocábulos inexistentes na língua. A ci-
ência e a terminologia, realmente, apontam, mais, claramente, as raízes
dos problemas ou dificuldades na leitura, escrita e ortografia.

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